Crise? Cresce a procura por seminovos acima de R$ 500 mil

Levantamentos de mercado revelam que consumidor de alto padrão mudou a forma de comprar, priorizando a exclusividade e a relação custo-benefício dos seminovos de luxo

O mercado automotivo de alto padrão no Brasil está passando por uma transformação impulsionada por um novo perfil de consumidor. Em vez de focar exclusivamente nos veículos 0km, o público de alta renda têm voltado suas atenções para o segmento de seminovos premium. Dados recentes da Webmotors, por exemplo, já apontam um crescimento de 17% nas buscas por carros acima de R$ 500 mil no país, um reflexo direto do aumento do patrimônio e de uma mudança no comportamento de compra.

O cenário macroeconômico ajuda a explicar esse aquecimento. Segundo o Global Wealth Report, publicado pelo UBS (maior gestora de patrimônio do mundo), o Brasil ganhou 9,2 mil novos milionários em dólar (aproximadamente R$ 5,2 milhões) em 2025. É um público que chega ao mercado buscando oportunidades de alto valor agregado e que se soma a uma base de clientes já consolidada e cada vez mais exigente.

Na Via Soho Motors, loja automotiva premium sediada em Curitiba (PR) e com atuação nacional, esse movimento é medido na prática. A empresa registra atualmente mais de 400 contatos mensais de clientes interessados em conhecer o showroom, realizar trocas ou encomendar modelos específicos – operações de “car hunter” que frequentemente envolvem tickets acima de R$ 500 mil.

Para Felipe Janeiro, sócio-fundador da Via Soho, a alta procura tem uma razão. “A parte desse crescimento se explica pela conta que o cliente faz. Um carro que sai da concessionária tem um valor consideravelmente mais alto do que um seminovo capaz de entregar o mesmo pacote: mesma configuração, baixa quilometragem e, muitas vezes, ainda dentro do período de garantia. O valor agregado é o mesmo. O valor pago, não”, analisa.

Personal branding
Se a matemática atrai, é a exclusividade que fecha o negócio. A decisão de compra nesse estrato deixou de girar apenas em torno das especificações técnicas do carro e passou a focar na experiência. Janeiro observa que, para clientes que já possuem coleções de uma mesma marca na garagem, o diferencial está no atendimento ágil, na confiança e no que o veículo representa socialmente. “O primeiro fator de compra hoje é o personal branding. A vida de cada pessoa passa a estar cada dia mais em evidência e a sua imagem traduz a sua marca. O carro que você dirige mostra quem você é”, destaca.

Para atender a esse nível de exigência, a curadoria precisa ser implacável. Modelos raros no Brasil, como Ferrari Purosangue, Ferrari 488 Pista, Lamborghini Urus e configurações exclusivas da Porsche, são exemplos do nível de produto exigido. “A experiência começa na entrada do veículo no estoque, não na saída. Os carros precisam atingir um padrão altíssimo; nem todo carro entra no nosso showroom. Transparência e credibilidade valem mais do que qualquer argumento de venda”, reforça o executivo.

Futuro do segmento 
Outro movimento captado pela Via Soho e que reflete a mudança de consumo nacional é a forte procura por veículos eletrificados. A busca por esportivos híbridos e elétricos tem crescido de forma consistente, assim como a demanda por picapes elétricas — um produto que atende diretamente ao agronegócio, setor que movimenta grande parte das riquezas do país.

O futuro do mercado premium, segundo o sócio, já está acontecendo. A demanda por exclusividade, tecnologia e performance tem atraído os olhares do mundo para o Brasil, motivando o retorno ou a chegada de operações oficiais de marcas icônicas, como Lotus e Cadillac. “O aumento da concorrência descentraliza quem move o ponteiro, oferecendo mais opções e aquecendo ainda mais um segmento que não para de bater recordes”, conclui.