Sete em cada dez motoristas de aplicativos reclamam das taxas

Estudo mostra que a redução desses encargos é apontado como o melhor caminho para os profissionais ganharem mais, até mesmo do que aumentar o número de corridas

O trabalho por aplicativos cresceu como alternativa de renda para muitos brasileiros. Porém, a expansão do setor não eliminou uma questão central para quem está na ponta: quanto do valor gerado por corrida ou entrega efetivamente fica com o profissional? A percepção dos próprios motoristas e entregadores é que o problema está menos na falta de trabalho do que na parcela da receita que chega ao bolso depois das taxas cobradas pelas plataformas. 

Segundo levantamento da GigU em parceria com aJangada Consultoria de Comunicação, para 67,5% dos entrevistados a principal medida capaz de aumentar seus ganhos seria a redução das taxas cobradas pelos aplicativos. O resultado coloca a remuneração líquida no centro da discussão sobre o futuro do trabalho por plataformas e sinaliza que, para a maioria dos profissionais, aumentar o volume de chamadas não necessariamente resolve o problema.

A diferença aparece com clareza quando as demais respostas são analisadas. Apenas 7,7% apontam a existência de mais corridas ou entregas como o principal caminho para elevar a renda. Outros 9,5% gostariam de receber mais informações sobre os ganhos antes de aceitar uma chamada, enquanto 9,9% citam programas de benefícios e incentivos. Outros modelos de remuneração aparecem com 5,4%.

 O dado ajuda a deslocar o debate sobre a relação entre plataformas e profissionais. Em vez de simplesmente buscar mais demanda, o trabalhador parece estar olhando para a eficiência econômica de cada hora trabalhada. Se uma corrida adicional vem acompanhada de uma taxa que reduz significativamente o valor recebido, aumentar o número de chamadas pode significar apenas trabalhar mais para obter um ganho proporcionalmente menor.

Essa percepção também se conecta à dificuldade de prever a renda. No mesmo levantamento, 43,6% dos profissionais classificam seus ganhos como pouco ou nada previsíveis, enquanto 44,6% consideram a renda razoavelmente previsível. Apenas 11,8% dizem ter ganhos muito previsíveis. A combinação dos dois resultados revela um desafio maior para o setor: não basta discutir quanto o aplicativo movimenta ou quantas chamadas oferece. Para quem trabalha na plataforma, a questão é quanto sobra e quão possível é antecipar esse valor.

A discussão tende a ganhar importância à medida que novos modelos de cobrança e remuneração são testados pelas empresas. A redução das taxas aparece como a alternativa mais desejada, mas a pesquisa também mostra que existe demanda por maior transparência sobre o valor das chamadas e por mecanismos que tornem a renda menos sujeita a oscilações. São questões diferentes, mas que convergem para a mesma preocupação: dar ao profissional maior capacidade de calcular se o tempo e os custos envolvidos na atividade estão compensando.

Para Luiz Gustavo Neves, CEO do GigU, os resultados mostram que a discussão sobre remuneração precisa considerar o valor que efetivamente chega ao trabalhador. “O profissional não está olhando apenas para o número de corridas que consegue fazer. Ele está fazendo uma conta mais completa, que envolve a margem de lucro, o valor que recebe e a previsibilidade dessa renda. Modelos que consigam melhorar essa equação tendem a ser mais relevantes para a categoria do que simplesmente aumentar o volume de chamadas”, afirma.