As últimas prestações de contas dos candidatos divulgadas no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram como os 24 deputados distritais eleitos no Distrito Federal no último pleito estão financiando suas campanhas em 2026. Vinte deles tentam renovar o mandato na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), enquanto quatro decidiram disputar cargos de maior abrangência: Paula Belmonte (PSDB) concorre ao governo do DF e Thiago Manzoni (PL), Fábio Felix (PSOL) e Daniel Donizet (MDB) buscam uma vaga na Câmara dos Deputados. A diferença entre as campanhas aparece tanto no volume arrecadado quanto na origem dos recursos.
Os limites legais de gastos ajudam a explicar parte dessa diferença. Para deputado distrital, o teto no primeiro turno é de R$ 1.270.629,01. Para deputado federal, chega a R$ 3.176.572,53. Segundo a cientista política Teresa Starling, da Universidade de Brasília (UnB), os diferentes limites refletem o alcance dos cargos em disputa. “A disputa para deputado federal, ela tem dimensão nacional; ela vai influenciar como que o partido se relaciona com o governo federal, a composição do Congresso. Enquanto a disputa distrital, ela tem mais a ver com a representação política do partido no Distrito Federal”. A campanha ao governo do Distrito Federal também opera em uma escala superior à da disputa pela CLDF, sendo R$ 7.115.522,46.
A origem do dinheiro é um dos aspectos que mais chama atenção nas contas. Nas campanhas com maior arrecadação, os repasses das direções partidárias representam, em vários casos, mais de 90% das receitas. Na disputa pela Câmara dos Deputados, Thiago Manzoni declarou R$ 2,386 milhões, dos quais R$ 2,25 milhões, ou 94,28%, vieram do PL Nacional. Fábio Felix registrou R$ 2,140 milhões, com R$ 2,089 milhões, equivalentes a 97,61%, provenientes das direções nacional e distrital do PSOL. Paula Belmonte arrecadou R$ 2,991 milhões, incluindo R$ 2,18 milhões, ou 72,89%, transferidos pela direção nacional do PSDB.
Entre os candidatos à CLDF, a concentração também é expressiva. Joaquim Roriz Neto (PL) declarou cera de R$ 1,265 milhão, dos quais R$ 1,17 milhão vieram do PL Nacional. Roosevelt Vilela (PL) registrou R$ 1,107 milhão, com R$ 1,07 milhão repassados pelo partido, o que representa 96.66% do total líquido de recursos recebidos. Max Maciel (PSOL) chegou a aproximadamente R$ 1,105 milhão, sendo cerca de R$ 1,094 milhão provenientes das direções nacional e distrital do PSOL. Rogério Morro da Cruz declarou R$ 800 mil, integralmente provenientes do PSD Nacional.
| Candidato (Partido) | Cargo Pretendido (2026) | Receita Total (R$) |
|---|---|---|
| Paula Belmonte (PSDB) | Governador | R$ 2.991.000,00 |
| Thiago Manzoni (PL) | Deputado Federal | R$ 2.386.600,00 |
| Fábio Felix (PSOL) | Deputado Federal | R$ 2.140.481,05 |
| Joaquim Roriz Neto (PL) | Deputado Distrital | R$ 1.265.250,00 |
| Roosevelt Vilela (PL) | Deputado Distrital | R$ 1.107.000,00 |
| Max Maciel (PSOL) | Deputado Distrital | R$ 1.105.392,65 |
| Robério Negreiros (PODE) | Deputado Distrital | R$ 936.500,00 |
| Daniel Donizet (MDB) | Deputado Federal | R$ 821.900,00 |
| Rogério Morro da Cruz (PSD) | Deputado Distrital | R$ 800.000,00 |
| Hermeto (MDB) | Deputado Distrital | R$ 698.300,00 |
| Martins Machado (Republicanos) | Deputado Distrital | R$ 632.358,66 |
| Dra. Jane (Republicanos) | Deputado Distrital | R$ 585.584,36 |
| Ricardo Vale (PT) | Deputado Distrital | R$ 531.056,01 |
| Chico Vigilante (PT) | Deputado Distrital | R$ 506.618,75 |
| Dayse Amarilio (PSB) | Deputado Distrital | R$ 420.000,00 |
| João Cardoso (PL) | Deputado Distrital | R$ 372.000,00 |
| Jaqueline Silva (MDB) | Deputado Distrital | R$ 370.000,00 |
| Gabriel Magno (PT) | Deputado Distrital | R$ 302.185,38 |
| Pepa (PP) | Deputado Distrital | R$ 223.914,00 |
| Pastor Daniel de Castro (PP) | Deputado Distrital | R$ 204.000,00 |
| Wellington Luiz (MDB) | Deputado Distrital | R$ 197.490,00 |
| Jorge Vianna (PSD) | Deputado Distrital | R$ 140.000,00 |
| Iolando (MDB) | Deputado Distrital | R$ 135.250,00 |
| Eduardo Pedrosa (UNIÃO) | Deputado Distrital | R$ 117.000,00 |
* Fonte: Dados das prestações de contas parciais registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 18 de setembro.
Partidos concentram recursos em determinadas candidaturas
A distribuição das verbas partidárias não ocorre de maneira uniforme entre os candidatos de uma mesma legenda. Martins Machado (Republicanos), por exemplo, declarou R$ 632,36 mil, aproximandamente, sendo R$ 620,07 mil em recursos do partido, o equivalente a 98,06% de sua receita. A delegada Doutora Jane, também do Republicanos, recebeu R$ 580,58 mil da legenda, ou 99,15% de um total de R$ 585,58 mil.
No PL, Prof. João Cardoso recebeu R$ 270 mil da legenda, o equivalente a 72,58% dos R$ 372 mil arrecadados, enquanto para Joaquim Roriz Neto e Roosevelt Vilela receberam uma doação milhonária do partido. Hermeto (MDB) teve R$ 300 mil do partido em uma receita de R$ 698,3 mil, enquanto Jaqueline Silva recebeu R$ 200 mil do MDB em um total de R$ 370 mil.
Apesar de terem recebido a mesma transferência de R$ 265,5 mil da Direção Nacional do PT, os deputados distritais apresentam caixas eleitorais bastante diferentes na prestação de contas parcial. Chico ampliou sua receita para R$ 506,62 mil, impulsionado por doações privadas. Gabriel Magno, por sua vez, declarou cerca de R$ 302,19 mil, dos quais a verba partidária corresponde a 87,86% do total, complementada por financiamento coletivo e pequenas doações de pessoas físicas. Ricardo Vale chegou a R$ 531,06 mil, no qual a doação da sigla representa 45.69% do montante. Algo semalhante ocorre com os distritais do partido Progressistas que receberam R$ 100 mil cada um. Porém, Pepa tem um total líquido de recursos recebidos de R$ 223,91 mil e o Pastor Daniel de Castro tem um total de R$ 204 mil.
Na outra ponta estão cinco deputados distritais que, na prestação de contas analisada, não registraram repasses do fundo eleitoral de suas legendas: Robério Negreiros (Podemos), Wellington Luiz (MDB), Jorge Vianna (PSD) e Iolando (MDB). Eles recorreram principalmente a doações de pessoas físicas e a recursos próprios para financiar as campanhas. Robério Negreiros é o caso mais expressivo. Ele declarou R$ 936,5 mil, quarta maior arrecadação entre os candidatos à CLDF, sem registrar dinheiro do partido. Pessoas físicas responderam por R$ 811,5 mil, ou 86,65% da receita. O próprio candidato colocou R$ 125 mil nos recursos da campanha.
O uso de recursos próprios também aparece entre candidatos que receberam dinheiro das legendas.Entre os candidatos à CLDF, Jaqueline Silva colocou R$ 70 mil, o equivalente a 18,92% de sua arrecadação. Hermeto investiu R$ 60 mil. Wellington Luiz e Jorge Vianna aportaram R$ 50 mil cada. Daniel Donizet aplicou R$ 40 mil na própria campanha, enquanto Pepa colocou R$ 30 mil. Aportes menores foram registrados por Roosevelt Vilela, com R$ 7 mil; Iolando, com R$ 5 mil; e Martins Machado, com R$ 388.
O autofinanciamento, porém, tem pesos diferentes conforme o tamanho do caixa. Os R$ 261 mil de Paula Belmonte representam uma parcela relativamente pequena, 8.73%, de uma campanha de quase R$ 3 milhões. Já os R$ 50 mil de Jorge Vianna correspondem a mais de um terço de toda a receita declarada pelo candidato.
Para Teresa Starling, a concentração dos recursos está relacionada ao papel que as direções partidárias passaram a desempenhar no financiamento eleitoral após a proibição das doações empresariais. Com a restrição ao financiamento por pessoas jurídicas, o Fundo Eleitoral se tornou uma das principais fontes de recursos das campanhas, e as direções partidárias passaram a ter papel central na distribuição do dinheiro público entre os candidatos.
Segundo a pesquisadora, os critérios adotados pelas cúpulas levam em conta estratégias eleitorais próprias de cada partido. A distribuição pode priorizar candidaturas com mandato, nomes considerados competitivos ou candidatos capazes de contribuir para o desempenho da chapa. O resultado é uma diferença significativa entre os caixas de concorrentes que disputam o mesmo cargo.
A distribuição desigual dos recursos partidários também coloca em evidência a diferença entre candidatos que já ocupam cargos eletivos e aqueles que tentam conquistar espaço na política. Os deputados que buscam a reeleição partem de uma estrutura que inclui notoriedade, presença política, equipes e redes de apoiadores construídas durante o mandato.
Na avaliação da especialista, quando essa estrutura prévia é acompanhada por repasses elevados do Fundo Eleitoral, a diferença entre os concorrentes pode se ampliar. “Os parlamentares em exercício já ingressam na disputa com vantagens estruturais decorrentes da notoriedade do cargo, da presença institucional e das redes políticas previamente estabelecidas”, afirma.
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