Deputados federais do DF receberam R$ 21,3 milhões para campanhas até agora

Dos oito nomes da bancada federal, seis concorrem à reeleição e dois disputam uma vaga no Senado

O primeiro turno das eleições será em 4 de outubro — Alejandro Zambrana/Secom/TSE

A prestação de contas das campanhas eleitorais no Distrito Federal, divulgada no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 18 de setembro, revela uma disputa marcada pela concentração de recursos e pelo peso das estruturas partidárias na definição do tamanho das candidaturas. Os oito integrantes da bancada federal do DF que disputam a eleição de 2026 declararam, juntos, R$ 21.334.426,71 em receitas. Mais de 60% desse valor está concentrado em apenas quatro candidaturas: Erika Kokay (PT), Alberto Fraga (PL), Bia Kicis (PL) e Rodrigo Rollemberg (PSB). Juntos, eles declararam cerca de R$ 12,85 milhões, equivalentes a 60,5% de todo o dinheiro informado pelos oito parlamentares.

Erika Kokay, candidata ao Senado, aparece no topo da arrecadação, com R$ 3,54 milhões. Em seguida estão Alberto Fraga, candidato à reeleição para a Câmara, com R$ 3,32 milhões; Bia Kicis, também candidata ao Senado, com R$ 3,22 milhões; e Rodrigo Rollemberg, candidato à reeleição para a Câmara, com R$ 2,77 milhões. A seguir, aparecem Rafael Prudente (MDB), com R$ 2,57 milhões; Prof. Reginaldo Veras (PV), com R$ 2,53 milhões; Fred Linhares (Republicanos), com R$ 1,83 milhão; e Julio Cesar Ribeiro (Republicanos), com R$ 1,56 milhão. A diferença entre a maior e a menor receita é de aproximadamente R$ 1,98 milhão, o que significa que a candidatura com maior volume de recursos declarou mais que o dobro da que aparece na última posição.

A concentração das receitas ocorre em um ambiente eleitoral em que os partidos passaram a ocupar posição central no financiamento das campanhas. Com o fim das doações empresariais, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e o Fundo Partidário se tornaram fontes fundamentais de recursos. Para 2026, o FEFC foi estabelecido em cerca de R$ 4,96 bilhões, distribuídos inicialmente entre as legendas segundo critérios previstos na legislação. Depois dessa primeira etapa, cabe às próprias agremiações definir a distribuição dos recursos entre suas candidaturas, respeitadas as regras eleitorais.

No Distrito Federal, essa estrutura aparece de forma bastante evidente. Alberto Fraga recebeu aproximadamente R$ 3,1 milhões do PL nacional. Erika Kokay teve cerca de 97% de seus recursos partidários provenientes da direção nacional do PT. Rodrigo Rollemberg recebeu aproximadamente R$ 2,58 milhões dos diretórios nacional e distrital do PSB, enquanto Rafael Prudente teve cerca de R$ 2,4 milhões provenientes da direção nacional do MDB. Reginaldo Veras recebeu aproximadamente 98,9% de sua receita da direção nacional do PV. No Republicanos, os repasses também mostram diferenças entre candidaturas: Fred Linhares recebeu R$ 649,5 mil da direção distrital e R$ 1,17 milhão da nacional, enquanto Julio Cesar Ribeiro recebeu cerca de R$ 973 mil da direção nacional e R$ 539 mil da direção distrital.

A concentração não começa no candidato

Para Teresa Starling, cientista política da Universidade de Brasília (UnB), o fim do financiamento empresarial não produziu necessariamente uma distribuição mais equilibrada dos recursos. A mudança alterou, principalmente, o centro de decisão sobre o dinheiro. “O fim do financiamento empresarial fez com que o dinheiro público tivesse um peso muito grande nas campanhas, mas isso não significa que o financiamento seja igualitário”, afirma. Segundo ela, a disputa por recursos migrou para dentro das estruturas partidárias, ampliando o poder das direções na definição de quais candidaturas terão maior capacidade financeira.

A leitura ajuda a interpretar a concentração observada no DF. As quatro maiores receitas respondem por 60,5% do dinheiro declarado pelos oito integrantes da bancada. Em outras palavras, quatro candidaturas dividem os 39,5% restantes. A diferença não é necessariamente resultado da capacidade de arrecadação individual de cada candidato, mas também das escolhas feitas pelos partidos na distribuição dos recursos sob seu controle.

A decisão de concentrar recursos em determinadas candidaturas pode estar relacionada à estratégia eleitoral de cada legenda. Na avaliação de Starling, partidos tendem a considerar a capacidade de candidatos já conhecidos ou com estruturas políticas consolidadas de preservar ou ampliar a representação. “Em geral, priorizam candidatos que já têm mandato ou base consolidada para puxar votos e garantir cadeiras no Congresso”, afirma. A lógica é que um candidato à reeleição não parte do mesmo ponto de uma candidatura que precisa construir reconhecimento e estrutura do zero. Ele já tem redes políticas, presença territorial, equipes e algum grau de reconhecimento do nome.

Na bancada do DF, seis dos oito parlamentares concorrem à reeleição para a Câmara dos Deputados, enquanto Erika Kokay e Bia Kicis disputam uma vaga no Senado. Essa diferença é relevante porque se trata de disputas com características distintas. Uma candidatura à Câmara precisa disputar votos em todo o Distrito Federal para compor uma votação competitiva dentro do sistema proporcional. A eleição para o Senado, por sua vez, é majoritária e concentra a disputa em um número menor de vagas. Por isso, comparar apenas o tamanho das receitas pode esconder estratégias diferentes. O mesmo volume de dinheiro pode ser empregado para alcançar objetivos eleitorais distintos.

Militância de rua concentra gastos das campanhas

Entre os oito integrantes da bancada do Distrito Federal, atividades de militância e mobilização de rua aparecem como uma das principais frentes de gasto das campanhas, sinalizando a importância atribuída à presença física nos territórios durante o pleito. O movimento é mais acentuado em Fred Linhares, no qual 88,78% das despesas analisadas a esse tipo de atividade, seguido por Julio Cesar Ribeiro, que destinou 72,13%; Alberto Fraga, com 40,47%; Bia Kicis, com 39,14%; Rollemberg com 37,40%; Prof. Reginaldo Veras, com 36,92%. Por fim, Rafael Prudente com 30,73%. Erika Kokay é a única cuja a maior concentração de despesas não é atividades de militância e mobilização de rua. A deputada utiliza parte relevante dos gastos em materiais impressos e produção audiovisual.

A distribuição dos gastos ajuda a relativizar a importância do ranking de arrecadação. Para Starling “quanto entra na conta da campanha é uma coisa”, mas é preciso observar o que esse dinheiro efetivamente permite fazer. Na avaliação da especialista, o cruzamento entre receitas e despesas mostra se os recursos estão sendo transformados em capacidade operacional, por meio de gastos com pessoal, eventos e materiais de campanha, ou se permanecem concentrados em poucas categorias de despesas. Ela ressalta ainda que a estrutura anterior de cada candidatura interfere nessa equação: parlamentares que já têm mandato chegam à eleição com redes políticas e equipes construídas, enquanto os que precisam formar uma estrutura do zero podem demandar mais recursos. A prestação de contas, portanto, não mostra apenas quanto cada candidato recebeu, mas também como cada um está convertendo esse dinheiro em atividade eleitoral.