92% dos eleitores rejeitam uso de deepfake contra adversários políticos

Pesquisa Indexa/Broadcast mostra que confiança para identificar conteúdos manipulados é maior entre eleitores de 25 a 44 anos e com ensino superior

Urnas que serão utilizadas na eleição de outubro: maioria do eleitorado é contra uso da IA pelos candidatos — Luiz Roberto/TSE

A pesquisa Indexa/Broadcast, divulgada nesta quarta-feira (26/8), que mostra a redução da diferença entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno para o menor nível desde maio (39% a 34%) também traz um retrato sobre como o eleitorado vê o uso da inteligência artificial pelas campanhas políticas: 72% afirmam ser totalmente capazes ou mais capazes que incapazes de reconhecer uma foto, áudio ou vídeo de candidato manipulado, os chamados deepfakes.

Do total, 39% se consideram totalmente capazes de identificar esse tipo de conteúdo, enquanto 33% dizem ser mais capazes que incapazes. Na outra ponta, 14% afirmam ser totalmente incapazes e 10% se consideram mais incapazes que capazes. Outros 4% não souberam responder.

Apesar da confiança para identificar manipulações, a maioria dos eleitores é contrária ao uso político de deepfakes. Quando perguntados se um candidato deveria poder utilizar a tecnologia em conteúdos envolvendo um adversário, 92% respondem que não. Apenas 6% consideram esse uso permitido e 2% não souberam responder.

A rejeição também é ampla quando o deepfake é usado para favorecer a própria candidatura. Nesse cenário, 84% são contrários, enquanto 13% consideram que a prática deveria ser permitida. Outros 3% não souberam responder.

O tema já deixou de ser uma possibilidade distante e passou a aparecer em eventos da pré-campanha eleitoral. Em 25 de julho, durante a convenção nacional do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, um vídeo produzido por inteligência artificial simulou a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No início da gravação, o avatar informava que se tratava de uma simulação produzida por IA. Em seguida, a representação digital de Bolsonaro manifestava apoio à candidatura do filho.

Uso de IA chegou ao Judiciário

O episódio também teve desdobramentos no Supremo Tribunal Federal. A defesa de Jair Bolsonaro informou posteriormente que o ex-presidente não havia autorizado o uso da imagem e voz dele. Flávio Bolsonaro afirmou que o pai não tinha conhecimento prévio da produção. Segundo ele, sua equipe havia estudado a legislação antes de utilizar o recurso.

Para o sociólogo e CEO da Indexa Pesquisas, Arilton Freres, o episódio mostra que a inteligência artificial passou rapidamente das possibilidades para a prática eleitoral. “A inteligência artificial já está presente na campanha e tende a ser utilizada de diferentes maneiras até a eleição”, afirma. Segundo ele, a confiança dos eleitores em reconhecer conteúdos manipulados será testada à medida que a tecnologia avance e as informações circulem rapidamente pelas redes sociais.

Confiança é maior entre 25 e 44 anos

A percepção sobre a própria capacidade de reconhecer deepfakes varia conforme a idade. Entre eleitores de 25 a 34 anos, 79% se consideram capazes de identificar conteúdos manipulados. São 46% que se dizem totalmente capazes e 33% mais capazes que incapazes.

Entre os brasileiros de 35 a 44 anos, o percentual chega a 81%. Nesse grupo, 44% se consideram totalmente capazes e 37% mais capazes que incapazes.

Entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, 77% avaliam ter essa capacidade. O índice reúne 40% que se consideram totalmente capazes e 37% mais capazes que incapazes.

A confiança diminui entre os grupos mais velhos. Dos 45 aos 59 anos, 69% se consideram capazes em algum grau. Entre os eleitores com 60 anos ou mais, o percentual cai para 53%. Nesse grupo, 24% afirmam ser totalmente incapazes e 17% mais incapazes que capazes.

Para Freres, os resultados mostram que os eleitores não estão preocupados apenas com a possibilidade de serem enganados. “A maioria esmagadora rejeita o uso de deepfakes contra adversários”, afirma. Segundo ele, o resultado aponta para a percepção de que existem limites para o uso da tecnologia nas campanhas.

Como foi feita a pesquisa

A pesquisa Indexa/Broadcast ouviu 2 mil eleitores brasileiros entre 20 e 23 de agosto de 2026, por meio de entrevistas individuais por telefone. A amostra foi distribuída proporcionalmente entre as grandes regiões e ponderada por gênero, idade, escolaridade, renda e região. O levantamento tem nível de confiança de 95% e margem de erro máxima estimada de 2,2 pontos percentuais para o conjunto da amostra. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06366/2026.