Desastres climáticos atingem 91% das cidades brasileiras

Nove em cada dez municípios tiveram desastres climáticos entre 1991 e 2024. Estudo aponta quase 60 mil ocorrências e perdas de US$ 123 bilhões

Em 33 anos, desastres climáticos afetaram 129,7 milhões de brasileiros e provocaram ao menos 4.774 mortes. Foto: Agência Brasil.

Nove em cada dez municípios brasileiros registraram pelo menos um desastre climático associado ao excesso ou à falta de chuva entre 1991 e 2024. O dado faz parte de um estudo realizado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A pesquisa analisou cerca de 60 mil registros de eventos extremos classificados em quatro categorias: inundações, alagamentos e enxurradas; deslizamentos de terra; tempestades; e secas. Ao todo, 5.100 dos 5.570 municípios brasileiros tiveram ao menos uma ocorrência no período, o equivalente a 91,5% das cidades do país.

O levantamento também aponta a sobreposição de riscos climáticos. Cerca de 1.814 municípios enfrentaram três dos quatro tipos de desastres analisados, enquanto 270 registraram todas as categorias avaliadas pelos pesquisadores.

O Nordeste concentrou o maior número de municípios afetados, com 1.765 cidades, seguido pelo Sudeste (1.405), Sul (1.152), Norte (433) e Centro-Oeste (342). Os impactos, porém, variaram conforme as características de cada região.

Ao longo de pouco mais de três décadas, os desastres analisados provocaram pelo menos 4.774 mortes, deixaram 3.031 desaparecidos e afetaram mais de 129,79 milhões de pessoas. As perdas econômicas estimadas ultrapassaram US$ 123,89 bilhões, considerando danos materiais e impactos indiretos sobre a economia local.

As inundações, alagamentos e enxurradas foram responsáveis pelos maiores prejuízos econômicos no Sul do país. No Nordeste, as secas tiveram o maior peso, enquanto as tempestades concentraram impactos econômicos mais relevantes no Sudeste. Em relação aos óbitos, o Sudeste liderou os registros associados a enchentes e deslizamentos, o Sul em tempestades e o Nordeste em períodos de estiagem.

Entre os episódios recentes estão as chuvas extremas que atingiram São Sebastião (SP), em 2023, causando ao menos 60 mortes, e a tragédia climática no Rio Grande do Sul, em maio de 2024, que afetou 2,3 milhões de pessoas em 471 municípios e provocou mais de 180 mortes.

O estudo aponta que os desastres climáticos não são resultado apenas de fenômenos naturais, mas também da vulnerabilidade das cidades, da ocupação do território e da capacidade de prevenção e resposta do poder público.

Subnotificação 

Os pesquisadores alertam ainda que os números podem estar subestimados devido às limitações dos sistemas de registro. As informações utilizadas foram obtidas no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) e no Atlas Digital de Desastres no Brasil, plataformas alimentadas a partir de dados enviados pelos próprios municípios.

A pesquisa destaca que a falta de estrutura de parte das administrações locais pode dificultar a notificação de perdas e mortes. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que cerca de 1.660 cidades brasileiras não possuem Defesa Civil organizada.

Para os pesquisadores, o cenário reforça a necessidade de ampliar investimentos em adaptação climática, sistemas de alerta e prevenção, reduzindo a dependência de ações emergenciais após a ocorrência dos desastres.