Brasil lidera recuo global na perda de florestas tropicais

Queda de 36% na perda de florestas tropicais em 2025 é puxada pelo Brasil, que apresentou redução de 42,4%

No Brasil, a perda de florestas primárias caiu 42,4%, somando 1,63 milhão de hectares, cerca de 2,8 vezes o DF. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

A redução da perda de florestas tropicais em 2025 marcou uma inflexão relevante no cenário ambiental global, mas ainda distante das metas climáticas internacionais. Dados do World Resources Institute (WRI) indicam que a devastação caiu 36% no mundo, movimento puxado principalmente pelo desempenho brasileiro.

No Brasil, a perda de florestas primárias recuou 42,4% no período, totalizando 1,63 milhão de hectares — área equivalente a cerca de 2,8 vezes o território do Distrito Federal. Apesar da queda expressiva, o volume ainda é significativo e revela a persistência de pressões estruturais. 

Os incêndios responderam por 65,2% da área perdida, enquanto o desmatamento associado à expansão agrícola e outras atividades somou 34,8%. Estados como Amazonas e Mato Grosso lideraram as reduções, ao passo que Maranhão e Rondônia mantiveram níveis elevados.

Em escala global, o planeta perdeu 4,3 milhões de hectares de florestas tropicais primárias, uma área comparável ao território da Dinamarca. Embora o recuo anual represente um alívio, o ritmo de destruição ainda supera em 46% os níveis registrados há uma década, com perdas ocorrendo na velocidade de 11 campos de futebol por minuto.

Agro x desmatamento 

Os dados, produzidos pela Universidade de Maryland e divulgados na plataforma Global Forest Watch, mostram que a agropecuária segue como principal vetor do desmatamento em países como Bolívia e Indonésia. Ao mesmo tempo, o avanço dos incêndios florestais tem alterado o perfil da devastação global, com destaque para o Canadá, que enfrentou uma das piores temporadas já registradas, somando 5,3 milhões de hectares queimados.

Apesar da melhora, o cenário ainda coloca em risco o compromisso internacional de interromper e reverter a perda florestal até 2030. Atualmente, a destruição ocorre em níveis cerca de 70% superiores ao necessário para cumprir a meta. No caso brasileiro, especialistas atribuem parte do avanço à retomada de políticas públicas ambientais, incluindo o fortalecimento do combate ao desmatamento e o endurecimento de sanções.

Para Mirela Sandrini, diretora do WRI Brasil, o resultado evidencia o peso da ação governamental. “O progresso do Brasil mostra o que é possível quando a proteção das florestas é tratada como uma prioridade nacional”, afirma. Ela pondera, no entanto, que a fiscalização isolada não será suficiente e defende o fortalecimento de uma economia que valorize a floresta em pé, além da ampliação de estratégias de prevenção conduzidas por comunidades locais.

Trégua de eventos extremos

A leitura de especialistas aponta que a queda global também reflete uma espécie de trégua após eventos extremos recentes. “A redução da perda florestal no nível observado em 2025 é animadora e mostra o alcance de ações governamentais decisivas, mas parte desse resultado reflete uma trégua após um ano marcado por incêndios extremos”, diz Elizabeth Goldman, codiretora do Global Forest Watch. 

Em outro alerta, ela acrescenta: “Fogo e mudanças climáticas se retroalimentam e investimentos em prevenção serão essenciais”.

A perspectiva para os próximos anos adiciona novas incertezas. A possível ocorrência do fenômeno climático El Niño em 2026 tende a elevar temperaturas e intensificar secas, ampliando o risco de incêndios. Nesse contexto, florestas que hoje atuam como sumidouros de carbono podem se transformar em fontes emissoras, agravando o aquecimento global.

Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI, destaca que eventos climáticos extremos já comprometem a capacidade de regeneração dos ecossistemas. A combinação entre degradação e mudanças climáticas enfraquece uma das principais barreiras naturais contra o aumento das temperaturas.

Apesar dos avanços, o cenário ainda exige mudanças estruturais. As florestas tropicais são essenciais para a estabilidade climática, a biodiversidade e milhões de pessoas, e sua preservação depende de decisões políticas consistentes e de estratégias de adaptação.