Segundo turno: governo estuda nova estratégia para a economia

Fontes do governo admitem que Lula deve mudar o discurso de campanha, demostrando responsabilidade fiscal, e orientou Grass a falar sobre o rombo do BRB

Foto: Saulo Cruz/Agência Senado e Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O resultado inesperado do primeiro turno das eleições presidenciais, realizado no último domingo está fazendo com que a equipe de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tome um choque de realidade e faça uma revisão da estratégia para a política econômica, uma vez que minimizar os riscos do aumento do endividamento público não foi uma boa estratégia até agora. Além de buscar uma nova estratégia na área econômica para o discurso de campanha, Lula insistiu que o governo não deverá socorrer o Banco de Brasília (BRB).

A largada na dianteira do candidato Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 45,03% dos votos válidos, recebeu 2,2 milhões de votos a mais do que o petista, que ficou com 45,16%, fato que foi comemorado pelo mercado financeiro por meio de novo recorde na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) e de quedas no dólar e nas taxas de juros futuros.

Na reunião de Lula com ministros e aliados realizada, ontem, deu sinais de que há interesse em demonstrar que o governo tem responsabilidade fiscal e se preocupa com o equilíbrio das contas públicas, segundo fontes próximas a ambos, apesar de declarações recentes do coordenador do programa de governo petista, José Sérgio Gabrielli, chamar de “mito” a tese de que existe problemas com o elevado nível de endividamento público e defender o aumento de gastos. “O discurso vai mudar”, disse uma fonte da Esplanada dos Ministérios.

Nesse sentido, o presidente do PT, Edinho Silva, em entrevista realizada nesta terça-feira (6/10),  afirmou que Lula assumiu os compromissos que o mercado quer dele e repetiu o discurso de que o “presidente pegou um país endividado”. Edinho também contou que Lula defende uma reforma administrativa como forma de melhorar as contas públicas e que “ele tem convicção de que o Estado brasileiro tem que ser reformado”. Além disso, declarou que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) deve ter ainda mais presença na campanha, mas não detalhou quais serão as novas funções dele.

Mas o problema é que, depois de anunciar vários pacotes que aumentam os gastos de forma permanente no Orçamento de 2027, como o reajuste de 15% no Bolsa Família, e que podem gerar um rombo adicional de até R$ 60 bilhões na peça orçamentária enviada ao Congresso Nacional, vai ser difícil para Lula convencer o mercado de que ele vai conseguir conter o espírito gastador da ala do governo que está mais próxima a ele.

Aliás, a falta de uma voz mais conservadora no ouvido de Lula, como era a do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles — um dos principais conselheiros de Lula no primeiro e segundo mandatos — tem contribuído para a perda da credibilidade da atual equipe econômica, segundo fontes do mercado. Na avaliação de vários analistas, Lula está cercado de bajuladores que evitam contrariar o presidente para continuar no governo no caso de um novo mandato. Além disso, ainda há uma “peneira” da primeira-dama Rosângela da Silva, para amigos e conhecidos antigos de Lula conseguirem ter acesso a ele.

No início do governo, o ex-ministro da Fazenda Haddad — derrotado nas urnas para o governo de São Paulo por Tarcísio de Freitas (Republicanos) pela segunda vez seguida — até tentou ganhar credibilidade junto ao mercado com o novo arcabouço fiscal, mas ela caiu por terra no momento em que ele alterou a regra antes mesmo de ela entrar em vigor justamente para acomodar aumento de gastos públicos. Além disso, o governo vem aplicando abatimentos de despesas da meta fiscal, a fim de mostrar o cumprimento da regra apenas no papel, como ocorria na contabilidade criativa do governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). 

Fontes do mercado contam que um dos principais problemas do atual governo é a equipe do primeiro escalão, considerada “muito fraca”. E eles não pouparam críticas ao ex-ministro Fernando Haddad, assim como aos atuais ministros, Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento), também considerados fracos para o cargo. Um dos economistas ouvidos pelo Blog contou ainda ouviu de um dos integrantes do governo uma proposta confusa para reformas, sugerindo uma emenda constitucional para uma medida que poderia ser feita via projeto de lei. “É de dar dó”, lamentou.

Foco no rombo do BRB

Na reunião de ontem, Lula parabenizou o candidato ao Governo do Distrito Federal pelo PT, Leandro Grass, pelo feito de conseguir levar a disputa pelo comando do Palácio do Buriti para o segundo turno. O candidato petista recebeu 34,47% dos votos válidos, enquanto a governadora, Celina Leão (PP), 49,93%. 

Após cumprimentar Grass, Lula disse que ele precisa focar o discurso da campanha na crise BRB, que, conforme as investigações da Polícia Federal, comprou mais de R$ 12 bilhões de créditos podres do Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado. “Lula disse que é muito grave o fato de o BRB perder mais de R$ 12 bilhões que ninguém sabe onde foi parar esse dinheiro”, disse uma fonte que participou da reunião acrescentando que há especulações de que esses recursos possam estar sendo usados na campanha da governadora.

De acordo com a mesma fonte, Lula disse a Grass que ele precisa insistir nesse assunto e reforçou que “o Ministério da Fazenda não vai ajudar a socorrer o BRB, porque o dinheiro desviado pelo Master precisa aparecer”.  Enquanto isso, fontes próximas ao candidato lamentam o fato de que Celina Leão sinalizou que não pretende participar de debates no segundo turno.

Vale lembrar que, desde março deste ano, o BRB não publica os balanços financeiros referentes ao segundo semestre de 2025 e o rombo do banco regional está sendo cogitado acima de R$ 15 bilhões. Enquanto isso, o governo do DF segue tentando aprovar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) com aval da União sem sucesso, porque se depender do atual governo, isso não ocorrerá. A governadora Celina Leão, inclusive, já admitiu, em uma entrevista a vários jornalistas em agosto, que, “se o balanço for publicado, liquida o BRB”.