FMI reforça alerta sobre persistência da inflação global

Em artigo, Fundo informa que constatou que os preços de bens essenciais, em relação a outros produtos, "continuam a subir por mais de um ano após o início de um episódio típico e permanecem persistentemente elevados"

FMI sede. crédito: Rosana Hessel/DAPress

O Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um alerta, nesta terça-feira (6/10), de que a inflação de produtos básicos, como alimentos e energia, está sendo mais persistente do que o previsto, devido às guerras no Irã e na Ucrânia.

“O custo de itens essenciais do dia a dia — de alimentos e eletricidade a combustíveis — aumentou drasticamente nos últimos cinco anos. Isso se deve, em grande parte, às perturbações nos mercados globais de commodities, desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, até o conflito no Oriente Médio ocorrido neste ano”, informou o Fundo em um dos artigos publicados, hoje, no Blog da instituição.

“Essas crises podem ameaçar a estabilidade macroeconômica, como demonstramos em um capítulo analítico da mais recente edição do ‘Panorama Econômico Global”. “Constatamos que os preços de bens essenciais, em relação a outros produtos, continuam a subir por mais de um ano após o início de um episódio típico e permanecem persistentemente elevados. Como resultado, as pessoas enfrentam não apenas uma alta temporária nos custos de alimentos e energia, mas também uma deterioração duradoura na acessibilidade a itens essenciais em comparação com outros produtos”, destacou o artigo assinado por Braulio Britos, Chiara Maggi, Galip Kemal Ozhan e Sihwan Yang.

Segundo os analistas do FMI, as expectativas de inflação também aumentaram e se mantêm acima dos níveis pré-crise por anos, “sugerindo que esses episódios podem complicar os esforços dos bancos centrais para controlar a inflação”. “Simultaneamente, o poder de compra sofre erosão à medida que os salários reais caem e permanecem abaixo dos níveis anteriores por um período prolongado”, acrescentou o texto.

“Durante essas crises de custo de vida, os preços de itens básicos, como alimentos e energia, disparam, superando a alta de outros preços e o crescimento dos salários. Como é difícil para as pessoas reduzir o consumo desses itens essenciais ou substituí-los totalmente, mesmo aumentos temporários de preços podem causar dificuldades significativas. As consequências vão muito além de alguns meses de inflação mais alta”, acrescentou o texto.

O FMI também destacou que aumentos abruptos nos preços de alimentos, energia e outras necessidades básicas “tornaram-se uma fonte recorrente de estresse econômico e social em diversos países”. “À medida que a economia global se torna mais exposta a tensões geopolíticas, perturbações relacionadas ao clima e outros choques de oferta, os formuladores de políticas se deparam cada vez mais com difíceis escolhas entre proteger famílias vulneráveis, preservar os sinais de preços, manter a sustentabilidade fiscal e salvaguardar a estabilidade macroeconômica”, ressaltou a instituição em um dos capítulos do novo relatório Panorama Econômico Global, que será divulgado na próxima semana, durante encontro de outono da organização multilateral que será realizado em Bangkok, na Tailândia, entre os dias 12 e 18 deste mês, em parceria com o Banco Mundial (Bird). 

No novo relatório, o FMI também vai apresentar as projeções atualizadas para o crescimento global. O Fundo ainda alertou que as consequências dos chamados choques de oferta vão muito além de “alguns meses de inflação mais alta”.

De acordo com a instituição multilateral, há riscos adicionais para transferências direcionadas e temporárias, que são a maneira de proteger os mais vulneráveis ​​de um aumento repentino no custo das necessidades básicas, devido ao custo fiscal das medidas e o tempo que elas são adotadas. “Proporcionar a mesma proteção por meio de medidas que suprimam os preços pode exigir entre três a 22 vezes os recursos fiscais, e as medidas podem tornar-se ineficazes quando o espaço fiscal é limitado ou quando muitos países implementam subsídios simultaneamente”, alertou o documento.

O conflito no Oriente Médio, iniciado no fim de fevereiro deste ano, impulsionou a inflação global e levou o FMI a revisar para cima sua previsão para o índice, atualmente em 4,7% no mundo em 2026, ante 4,1% no ano anterior. O dado foi revisado em julho e está 0,3 ponto percentual acima da previsão do relatório de abril. Para 2027, o Fundo elevou a estimativa para a inflação global de 3,7% para 3,9%. 

No Brasil, as projeções do mercado coletadas pelo Banco Central no boletim Focus seguem sendo revisadas para cima há três semanas consecutivas. No boletim divulgado ontem, a mediana das estimativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu para 5,01%, acima do teto da meta, de 4,5%, e da estimativa atual do FMI para o índice de preços global. Para 2027, a mediana das estimativas do mercado coletadas pelo BC passaram de 4,31% para 4,30% em uma semana.

A realização das reuniões anuais de outono do FMI e do Bird em Bangkok ressalta o papel da Tailândia como um centro de articulação regional e global, “refletindo sua resiliência econômica, seu progresso institucional e seu engajamento profundo e contínuo com parceiros internacionais ao longo das últimas três décadas”, segundo o Fundo. A última vez que o país sediou as reuniões anuais dos dois organismos ocorreu em 1991. “Voltar a sediar o evento após um longo intervalo evidencia o avanço do país — e da região como um todo — e reconhece o papel central da Ásia na definição da atual agenda de estabilidade econômica e financeira global”, destacou o FMI.