Para mercado, juros podem ficar estáveis até o fim de 2027

Após decisão unânime do Copom de manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano, apostas de manutenção desse patamar até o fim de 2027 aumentam

O Banco Central decidiu, nesta quarta-feira (4/11), interromper o ciclo de cinco cortes consecutivos na taxa básica da economia (Selic) e decidiu, por unanimidade, manter os juros básicos em 13,75% ao ano na primeira reunião após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A decisão era esperada pelo mercado, que já prevê manutenção dos juros nesse mesmo patamar até o fim deste ano. Além disso, crescem as apostas de que os juros podem continuar em 13,75% anuais até dezembro de 2027.

Ao justificar a decisão no comunicado, o BC destacou o aumento das incertezas nos cenários externo e doméstico e a desancoragem das expectativas, e, além disso, não deu sinais de que retomará o ciclo de flexibilização monetária na próxima reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 8 e 9 de dezembro, ao retirar o termo “calibragem” do comunicado. Essa decisão era esperada pelo mercado após o resultado do segundo turno não ter sido o esperado pelo mercado, que apostava na vitória do rival de Lula, Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para os Estados Unidos.

E, como Lula tem resistido em não dar sinais claros de que pretende começar a reduzir o ritmo de gastos, que segue maior do que o da arrecadação, gerando sucessivos rombos fiscais, impactando no crescimento da dívida pública, que está em 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar desde março de 2021, as projeções macroeconômicas só pioraram desde então. Não à toa, no comunicado, o Copom, que é composto por sete diretores indicados pelo petista, demonstrou preocupação com a questão fiscal também.

De acordo com Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, a decisão do Copom “refletiu uma piora nas perspectivas de inflação desde a reunião anterior”. “O Comitê alerta que o cenário global “tornou-se mais adverso”, devido ao aumento dos preços do petróleo e à política monetária mais restritiva nas economias avançadas”, destacou ele, lembrando que as expectativas de inflação “distanciaram-se adicionalmente em relação à meta”.

O economista da XP prevê a manutenção da taxa Selic em 13,75% até o fim de 2027. Nesse sentido, Megale destacou que a deterioração das expectativas de inflação também pode ser observada nas projeções do Copom. “Sob o cenário de referência, a projeção para o 2º trimestre de 2028 – o atual horizonte relevante – subiu de 3,1% para 3,5%, em linha com as nossas estimativas da XP”, escreveu.

Na mesma linha de raciocínio, o economista Daniel Xavier Francisco, do banco ABC Brasil, também não vê retomada do ciclo de corte de juros até o fim do próximo ano. Em comunicado para os clientes, destacou que, em comparação com o comunicado da reunião do Copom de setembro, “o texto trouxe alterações relevantes no diagnóstico de inflação, atividade econômica, cenário externo e na sinalização futura”. “Sendo que a mudança mais estrutural na condução da política monetária foi a interrupção dos cortes e a retirada da referência à continuidade do ciclo de flexibilização”, afirmou.

O analista do ABC lembrou que as projeções de inflação do Comitê também refletiram essa deterioração do cenário. Ele lembrou que, para o segundo trimestre de 2028, o novo horizonte relevante monitorado pelo Copom, a estimativa de inflação subiu de 3,1% para 3,5%, “revisando tanto a inflação de preços livres (de 3,0% para 3,4%) quanto de preços administrados (de 3,4% para 3,9%)”. Para o analista, a menção do BC à piora das estimativas no boletim Focus, sugere que a trajetória de juros atual do mercado é insuficiente para levar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) à meta no horizonte relevante.

No boletim Focus desta semana, a mediana das projeções do mercado no boletim divulgado pelo BC contempla taxas de 13,50% e 12,50% para o fim de 2026 e de 2027, respectivamente. “Entendemos que o Copom fechou a porta para novos cortes e, ao mesmo tempo, afastou por hora a perspectiva de aumentos nas taxas de juros”, resumiu Francisco. Ele projeta a taxa Selic em 13,75% anuais até o fim de 2027. “O colegiado tende a manter a Selic parada e aguardar a poeira baixar, especialmente no que se refere às incertezas em torno da política econômica futura e o prêmio de risco (fiscal) correspondente”, acrescentou.

Ao comentar a decisão do Copom, Rogério Sobreira, economista-chefe do Banco do Nordeste (BNB), destacou o aumento da cautela do BC no comunicado devido à deterioração das expectativas do mercado, e disse que considera a manutenção da Selic em 13,75% anuais na próxima reunião de dezembro. E, para o próximo ano, Sobreira não descartou a retomada gradual do processo de flexibilização monetária, “possivelmente a partir de janeiro, condicionada à continuidade da desaceleração da atividade, à acomodação das expectativas inflacionárias e à redução das incertezas fiscais e externas”. Nesse cenário, o economista do BNB disse que estima que a taxa Selic encerrará 2027 em 12% ao ano, patamar ainda mais otimista do que a maioria do mercado.

O ex-diretor do BC e economista-chefe do Itaú Unibanco, Diogo Guillen, destacou que a decisão do BC em manter a Selic era esperada pelo mercado, mas o comunicado do Comitê foi “menos duro” do que ele previa. “O comunicado também trouxe um cenário mais desafiador para a convergência da inflação à meta. Ainda assim, o tom veio um pouco menos duro do que antecipávamos”, escreveu o economista que também prevê a Selic encerrando 2027 a 13,75% ao ano.

Guillen destacou que, apesar de o BC reconhecer que o ambiente externo está mais adverso, chamou a atenção dele o uso do termo “mais acentuado” no texto para a desaceleração da atividade. “Considerávamos, anteriormente, ser um pouco cedo para essa conclusão, mas concordamos que a economia já está em processo de desaceleração”, acrescentou. Ele ainda classificou essa surpresa como “levemente dovish”, ou seja, “levemente tolerante com a inflação”.

Como principal novidade no comunicado, Guillen ainda destacou o fato de o Comitê descrever a política monetária como “substancialmente contracionista”. “Para nós, esse é o elemento mais importante do
comunicado, porque eleva bastante a barra para novas altas. A sinalização é de que, no cenário que o próprio Copom projeta, ele não pretende voltar a subir os juros”, escreveu. “O comunicado reforça as incertezas e um quadro desafiador para a política monetária, com a inflação mais elevada e atividade em desaceleração”, acrescentou.

Para o ex-diretor do BC, o diagnóstico do Copom “está em linha com a revisão de cenário feita pela equipe dele na semana passada”, que prevê a taxa Selic em 13,75% até o fim de 2027. Na nova estimativa, o Itaú Unibanco piorou a maioria das projeções macroeconômicas e revisou de 1,2% para 0,5% a previsão de crescimento do PIB em 2027. Além disso, elevou de 4,6% para 6,1% a estimativa para o IPCA no ano que vem.

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