Eurasia reduz de 70% para 60% chances de vitória de Flávio sobre Lula

Consultoria norte-americana destaca que "diversas pesquisas mostram a aprovação de Lula está subindo, enquanto a rejeição a Bolsonaro está aumentando", mas reconhece que reversão de vantagem ainda é "não é algo fácil"

Foto: Saulo Cruz/Agência Senado e Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O Exército do Lula, capitaneado pelo deputado André Janones (Rede-MG), impulsionou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos últimos dias, mobilizando as redes sociais como nunca antes os políticos e marqueteiros petistas tradicionais conseguiram e, portanto, mérito de Janones que tenta reverter o fiasco do resultado do primeiro turno. Dessa forma, as as chances de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), estão diminuindo, tornando a disputa para o segundo turno cada vez mais acirrada.

Conforme relatório da consultoria norte-americana Eurasia Group, a probabilidade de vitória de Flávio sobre o rival petista, no próximo domingo (25), caiu de 70% para 60%, “à medida que a campanha do presidente Lula ganha fôlego nos últimos dias da disputa”.  “Ao considerar o eleitorado provável, a vantagem de Bolsonaro é de pouco mais de dois pontos percentuais, mas pode diminuir ainda mais, visto que uma campanha eficaz do PT mudou a dinâmica a favor de Lula”, destacou relatório dos analistas liderados pelo diretor-geral para as Américas da Eurasia, Christopher Garman. 

Segundo o relatório, o debate na noite de hoje, na TV Globo, “pode ser decisivo para o resultado da eleição — embora Bolsonaro, provavelmente, mantenha uma leve vantagem —, e é improvável que os dois dias restantes até a votação sejam suficientes para que Lula tire uma diferença de dois pontos percentuais”. A consultoria destacou que a  campanha do PT está reduzindo a vantagem de Bolsonaro, pois as pesquisas divulgadas ao longo de 22 de outubro confirmaram a tendência observada nas últimas 48 horas, com o PT avançando na reta final da corrida eleitoral. “Considerando todos os levantamentos mais recentes, a vantagem média de Bolsonaro caiu para 1,9 ponto (ante 2,6 pontos em 21 de outubro)”, destacou o texto. Contudo, segundo a consultoria, é provável que as pesquisas superestimem o desempenho de Lula em cerca de 1,0 ponto percentual, o que situaria a vantagem de Bolsonaro acima de 2,0 pontos percentuais.  

Em uma abordagem probabilística, focada exclusivamente na dimensão da vantagem, indicaria uma probabilidade de vitória de cerca de 70% para Flávio. Contudo, o problema dele é a tendência, segundo o estudo. “Sua vantagem média diminuiu cerca de meio ponto desde o meio da semana, com outros institutos de pesquisa apontando uma redução de 1,0 a 2,0 pontos percentuais. Isso sugere um efeito expressivo da campanha. Diversas pesquisas mostram que a aprovação de Lula está subindo, enquanto a rejeição a Bolsonaro está aumentando”, acrescentou o texto. 

Agora, os  ataques do PT — que parecem estar surtindo efeito — acusam Bolsonaro de ter ligações com milícias e de promover cortes em programas sociais populares, como o Bolsa Família e auxílios estudantis. “Paralelamente, promessas como a gratuidade no transporte público e auxílios para estudantes universitários, somadas à aprovação da redução da jornada de trabalho, também estão impulsionando a aprovação de Lula”, comentou o estudo.

Pessimismo 

A consultoria Eurasia lembrou que, no primeiro turno, escândalos de corrupção dominaram o noticiário, reforçando o pessimismo do eleitorado, a aversão a Brasília e o desejo por mudança — fatores que prejudicaram Lula, que passou a ter uma maior probabilidade de vitória no segundo turno. “O baixo entusiasmo do eleitorado em relação a ambos os candidatos amplia o impacto da campanha. Uma característica marcante desta eleição é a falta de entusiasmo dos eleitores de ambos os lados por seus respectivos candidatos. Há um pessimismo quanto ao futuro, e cerca de 17% dos eleitores decidiram seu voto apenas nos dias que antecederam o primeiro turno”, alertou o relatório. 

A expectativa é de que parte dos eleitores que apoiaram Bolsonaro — ou que votaram em outros candidatos eliminados no primeiro turno e tendiam a apoiar Bolsonaro — pode mudar de voto, tornando viável uma vitória de Lula. “Como as preferências não estão profundamente consolidadas, a campanha ainda pode influenciar os eleitores”, informou a consultoria que lembrou que diversos fatores, no entanto, indicam que Bolsonaro ainda mantém uma vantagem.

“Uma diferença de dois pontos percentuais não é algo fácil de reverter. O cenário lembra a eleição de 2022, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu reduzir a distância em relação a Lula e teria vencido se tivesse tido mais uma ou duas semanas de campanha. A tendência favorece Lula, mas ele provavelmente não tem tempo suficiente para reverter o cenário da disputa”, destacou o documento.

Para os analistas da consultoria, o debate será fundamental e pode ser decisivo para o resultado de domingo, apesar de Bolsonaro ainda levar vantagem. “Ainda há um número considerável de eleitores indecisos ou dispostos a mudar de opinião; um desempenho muito bom de Lula — ou um deslize de Bolsonaro — poderia alterar o rumo da eleição”, informou o estudo.

“Embora Bolsonaro tenha mantido o foco em sua narrativa e conseguido levar Lula a discutir temas como segurança e corrupção — assuntos que o favorecem —, ele errou ao se mostrar excessivamente agressivo e desrespeitoso. Essa postura é arriscada ao lidar com alguém de 80 anos. Bolsonaro tem demonstrado disciplina e, muito provavelmente, fará ajustes. O formato adotado pela TV Globo não permitirá a desordem que marcou o primeiro debate e que tornou possível aquele tipo de provocação. Lula precisa de uma vitória clara; a Bolsonaro, basta manter sua posição”, alertou o documento.

Na avaliação dos analistas, o desejo de mudança por parte dos eleitores e a sensação de estagnação ainda pesam contra Lula. “A grande lição do primeiro turno foi que os eleitores de classe média sentem-se estagnados, estão pessimistas quanto ao futuro e preocupam-se com questões como corrupção e segurança. Esse cenário persiste e, provavelmente, continua a prejudicar Lula”, pontou o texto.