O mercado financeiro iniciou as operações desta segunda-feira (5/10), em clima de euforia após o resultado do primeiro turno das eleições gerais melhor do que o esperado, colocando o candidato Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno, com vantagem para o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro de mais de 2,2 milhões de votos.
No resultado oficial do primeiro turno, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. Ambos se enfrentam no segundo turno daqui a três semanas, em 25 de outubro. Essa inversão de favoritismo fez a Bolsa disparar e o dólar voltar a ficar abaixo de R$ 5, pois os operadores da Faria Lima estavam nitidamente torcendo para Flávio, mas analistas lembram dos riscos externos que não se dissiparam.
O Índice Bovespa (IBovespa), principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), iniciou o pregão desta segunda-feira (5/10) em alta e teve valorização superior a 9%, chegando perto de 210 mil pontos, acima do recorde histórico de 14/04, de 198.657 mil pontos, atingindo a máxima histórica intradiária, de 209.605 pontos. Às 14h registrava alta de 8,42%. Na contramão, o dólar recuou mais de 4% e voltou a ser negociado abaixo de R$ 5, também em reação ao resultado das urnas de ontem. Por volta das 15h20, a divisa norte-americana era cotada a R$ 5,997 para a venda, queda de 4,15%.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, destacou que o primeiro turno “entregou ao mercado um resultado melhor do que estava precificado”, contudo, lembrou que ainda não há uma nova política econômica. Além disso, apesar de o Brasil iniciar a semana com forte gatilho doméstico positivo, o ambiente global ainda continua desafiador.
“Nos Estados Unidos, o payroll de sexta-feira (2/10) mostrou criação de apenas 29 mil vagas em setembro e reforçou a percepção de desaceleração do mercado de trabalho. Entretanto, petróleo elevado e inflação ainda resistente impedem uma leitura muito dovish para o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano)”, destacou.
Na avaliação de Saravalle, o desempenho de Flávio nas urnas e, principalmente, a mudança na composição do Congresso Nacional em 2027 justificam uma redução inicial do prêmio de risco brasileiro. Isso favorece Bolsa, real e fechamento da curva de juros.
“O ponto decisivo daqui para frente será saber se a expectativa de mudança política se transforma em uma agenda fiscal crível. O mercado pode conceder o benefício da dúvida hoje. Mas, passado o entusiasmo inicial, começará a cobrar nomes, propostas, metas e capacidade de execução”, afirmou.
De acordo com o economista, nesta segunda-feira, o viés é claramente positivo para os ativos brasileiros — provavelmente acompanhado de volatilidade muito elevada. O grande termômetro não será apenas quanto a Bolsa sobe, mas quanto os juros longos caem. “Esse será o sinal mais importante para distinguir um simples rally eleitoral do começo de uma reprecificação estrutural do Brasil”, emendou.
“As eleições, como sempre, estão abertas. O favoritismo se inverteu. O mercado financeiro, historicamente traz a grande valorização ao redor do primeiro turno”, avaliou Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sintra. Ele reforçou que o Brasil não é uma bolha e também sente os impactos das incertezas externas. Nesse sentido, ele destacou dois fatos importantes que merecem atenção para qualquer um que vencer o segundo turno de 25 de outubro.
O primeiro, sobre os EUA enviando o terceiro porta-aviões para o Oriente Médio. O presidente dos EUA, Donald Trump, indicou que voltaria a bombardear após as eleições. O segundo, sobre as movimentações na Europa sugerem um ataque da Rússia nos países bálticos. “O cálculo é que Trump possui mais dois anos de mandato, estará pressionado politicamente pela provável derrota no Congresso. Além de ter se manifestado contra defender a Europa e reclamar da falta de apoio da região no Irã. Resumindo, momento ideal para Putin testar a união da Europa em defender um de seus territórios”, afirmou. “Nada sugere que os próximos quatro anos serão simples, independente de quem será o nosso próximo presidente”, acrescentou.
Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, reconheceu que os investidores estão bastante otimistas com uma possível alternância de poder e acreditam que o candidato de direita poderá adotar maior rigor na condução das contas públicas, promovendo um ajuste fiscal que contribua para reduzir a relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB). Ele lembrou que o dólar futuro também está em queda, recuando para R$ 4,41.
“O que observamos é um movimento bastante significativo, principalmente nas ações com maior sensibilidade à taxa de juros. Ainda é difícil dizer se esse movimento de alta terá continuidade. Hoje, tivemos um gap de alta muito forte e, provavelmente, haverá alguma correção posteriormente. No entanto, não acredito que essa realização ocorra ainda hoje. A tendência é que o mercado encerre o pregão próximo das máximas”, acrescentou.