No início de O Diabo Veste Prada, uma cena chama atenção. “Ela está a caminho. Avise todo mundo!”, desespera-se a ruiva Emily Charlton (Emily Blunt) ao telefone, após apresentar Andrea Sachs (Anne Hathaway) à sua mesa em seu primeiro dia de trabalho. Segundos depois, assistimos atentamente a diretora da Runway em seu caminho para a redação da revista, enquanto todos se organizam para recebê-la. Seu poder e presença intimidadora são inegáveis. Uma funcionária, inclusive, se retira do elevador para não dividi-lo, e pede desculpas à editora-chefe. Logo em seguida, vemos a icônica cena do momento em que as duas portas se abrem e nos é revelada Miranda Priestly, que remove os óculos escuros do rosto com drama e confiança.
No filme, a personagem interpretada por Meryl Streep tem autoridade total sobre a Runway, revista de moda considerada a mais popular e influente do mundo. Mas Miranda não é apenas uma figura fictícia. Na verdade, ela é inspirada em uma personalidade que possui tanto poder e influência quanto ela, mas no mundo real. Hoje diretora editorial global da Vogue, Anna Wintour também já foi editora-chefe e autoridade total sobre sua revista. Miranda pode ser uma versão mais caricata e carrancuda de Anna, mas divididas apenas por uma linha tênue entre a ficção e a realidade, as duas são a mesma pessoa.
É por isso que o encontro dessas duas figuras não é nada menos do que icônico. Estampando a capa da edição de maio da Vogue, em homenagem à estreia de O Diabo Veste Prada 2, esse momento tão esperado aconteceu. Clicadas pela maior fotógrafa de celebridades do mundo, Annie Leibovitz, as duas posaram usando Prada, é claro, em cenas que fazem referência a momentos importantes do filme, como as conversas de Miranda e Andrea no banco de trás do carro.
Um teaser cheio de humor e referências também fez parte do encontro das duas. No curta, a dupla divide o mesmo elevador – algo que, nem no filme, uma funcionária de Miranda ousou fazer. Elas se reconhecem mas não se lembram de onde, e revisitam grandes eventos de moda onde poderiam ter se visto, como no desfile da Chanel no Grand Palais, a cerimônia do Oscar ou o MET Gala, evento organizado por Anna desde 1995. Em seguida, discutem com suas assistentes ao telefone e percebem que são extremamente parecidas. Como a cereja do bolo, ao fundo, a música ambiente é Dancing Queen, do ABBA, canção que Streep regravou para Mamma Mia!. Foi o suficiente para enlouquecer os fãs e os entusiastas do mundo fashion.
Para a entrevista, Greta Gerwig, diretora de Adoráveis Mulheres e Barbie, atuou como mediadora. Entre as questões abordadas, as três conversaram sobre política, profissões, as dificuldades que enfrentam no dia a dia e como a moda se faz presente no cotidiano. “O que eu gostei no primeiro filme foi que ele mostrou ao mundo o tamanho do negócio da moda. É uma força econômica real em escala global, e o primeiro filme reconheceu isso. Muita coisa mudou. Mas eu gosto de pensar que estamos evoluindo, em vez de nos desintegrando. Ainda estamos aqui. Todos seguimos fazendo nosso trabalho, de formas diferentes e em múltiplas plataformas em vez de apenas uma, mas isso é maravilhoso. Estamos alcançando muito mais pessoas”, observou a editora da Vogue.
Além da imprensa, a moda também sofreu mudanças com o tempo. Wintour observa que antigamente, a indústria era elitista porque “viviamos no mundo da alta-costura e da moda muito cara, disponível apenas para um pequeno grupo de mulheres”. Em uma realidade de globalização, em que mais e mais pessoas têm acesso às redes sociais e onde informações voam rapidamente pelos canais de comunicação, a moda se tornou evidentemente mais democrática e com enorme influência. “(A moda) é central na cultura. Veja o interesse das pessoas no que os personagens estão vestindo em O Morro dos Ventos Uivantes ou Euphoria. Veja grandes empresas contratando grandes designers, como a Zara trazendo John Galliano como parceiro criativo. Ou a Gap com Zac Posen. A Coach contratando Stuart Vevers. A Uniqlo trabalhando com Jonathan Anderson e Clare Waight Keller. […] O cenário mudou muito”, adicionou.
Além disso, fugindo do assunto da moda, Meryl Streep e Anna Wintour ponderaram sobre vida, idade e família. Ambas com 76 anos – e sendo fotografadas por Annie Leibovitz, que também tem 76 -, a atriz e a editora revelam que, na verdade, contrário ao que todos pensam, a idade é uma vantagem. “Para voltar a interpretar Miranda 20 anos depois, eu realmente pensei com honestidade na Anna e tentei imaginar como deve ser carregar a responsabilidade dela, estar tão interessada pelo mundo e ser tão curiosa quanto ela precisa ser. Essa é a chave, eu acho, para estar viva: estar sempre desbravando novas águas. Sempre rompendo as ondas”, admitiu Streep. “Eu gosto da minha idade. Me sinto tão viva, animada e consciente como sempre, e gosto de aprender com meus filhos e com todas as minhas equipes ao redor do mundo. É sempre empolgante. E acho que, com a experiência, você ganha senso de equilíbrio e proporção, e entende que a vida não é perfeita, que as coisas vão dar errado e você simplesmente vai dar o seu melhor. Mas, se não der certo, é preciso seguir em frente”, opinou Wintour, por sua vez.
Convidadas a se aprofundar em suas vidas pessoais, Streep e Wintour comentaram sobre seus filhos e netos. Certamente, no dia a dia de uma atriz como Meryl e de uma diretora editorial global da Vogue, com tantos compromissos e correria, o tempo com a família pode ser mais escasso. Sobre isso, a intérprete de Miranda reflete: “É agarrar segundos. Agarrar tudo que você puder de seus netos, com a consciência de quão fugaz é tudo isso e de quão rápido o tempo passa”. Avó de seis, ela confessa tentar aproveitar o máximo que pode com os pequenos e agradece seus filhos por permitirem que ela passe tanto tempo com os filhos deles.
Na opinião de Anna, que é avó de quatro e tem quatro enteados-netos, para ser mãe com esses empregos é preciso arrumar tempo. Mesmo com a agenda cheia, ela fazia questão de ir aos jogos, de aparecer em reuniões de pais e mestres e de estar presente quanto era importante. “Eu sentia que a Vogue sempre podia esperar e que está tudo bem ser uma mãe ocupada. Você faz dar certo”, explicou. De família inglesa, ela contou que estão sempre jogando algum jogo ou organizando torneios de tênis. “Eu tento ensinar meus filhos e netos que o que importa é a família. E que é a família que vai te dar amor e apoio. Se você tiver isso, todo o resto ficará bem”, disse a londrina.
O Diabo Veste Prada 2 está marcado para estrear nos cinemas de todo o Brasil em 30 de abril. Até lá, ficaremos de olho nas entrevistas e nos looks de Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt para a turnê de divulgação.
Confira a entrevista na íntegra com a intérprete de Miranda Priestley e Anna Wintour para a capa da Vogue de maio aqui.