Guerra no Oriente Médio estremece mundo da moda

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), alta de custos e escassez de matéria-prima vão afetar os preços do varejo

Guerra no Oriente Médio estremece mundo da moda

A Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) emitiu ontem (6/4) um comunicado que demonstra preocupação com os desdobramentos econômicos da guerra no Oriente Médio, entre Estados Unidos, Israel e Irã, e seus reflexos no Brasil. Na nota, a associação alerta o mercado brasileiro dos reajustes e readequações financeiras, reflexos da ruptura estrutural da logística marinha e do fornecimento de matérias-primas.

A escalada do conflito, que inclui o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de escoamento de petróleo no mundo, já provoca efeitos diretos na cadeia global de suprimentos, segundo a entidade. “A tensão geopolítica gerou um choque de oferta imediato nos mercados internacionais de commodities, impactando de maneira implacável as rotas globais de comércio“, apontou Silvana Dilly, superintendente da Assintecal. As consequências afetam especialmente insumos derivados do petróleo, como polímeros, borrachas sintéticas, poliuretano e adesivos, além de tecidos como poliéster, poliamida, elastano e acrílico, essenciais para a indústria de moda.

O cenário também é agravado pela alta expressiva dos custos logísticos. “O mercado enfrenta uma explosão nos custos operacionais impulsionada pelo encarecimento dos fretes marítimos internacionais, agravada pela escassez de contêineres”, acrescentou Dilly. Valores extras cobrados por seguradoras para cobrir riscos associados a conflitos armados, chamados prêmios de risco de guerra, também contribuem para a alta dos preços e a redução da previsibilidade comercial.

A superintendente ressaltou que os reajustes observados no mercado não são arbitrários, mas consequência direta de uma conjuntura macroeconômica adversa. Em meio à alta de preços de recursos e à instabilidade no abastecimento, a recomposição de preços passa a ser uma medida necessária para garantir a continuidade das operações. “Trata-se, rigorosamente, do repasse inevitável de custos reais impostos pela macroeconomia global. Em um cenário de escassez e inflação generalizada de insumos, a adequação de preços deixa de ser uma variável de margem e torna-se uma contingência matemática”, esclareceu.

A nota emitida também foi usada como recomendação para que empresas mantenham diálogo constante com fornecedores, monitorando a disponibilidade de matérias-primas em tempo real e priorizando contatos consolidados para evitar maiores riscos de desabastecimento. A sugestão leva em consideração um cenário imprevisível, sem perspectiva de melhora repentina e a curto prazo. “Especialistas e analistas de mercado indicam que este ambiente de estresse logístico e produtivo deve persistir ao longo dos próximos meses, independentemente dos desdobramentos diplomáticos ou militares”, salientou Silvana.

O Brasil registrou alta inflacionária pela quarta semana seguida, com projeção do IPCA para 4,36% em 2026, segundo o IBGE. As estimativas dos próximos anos também não são otimistas. A imprevisibilidade sobre o fim do conflito causa ainda mais incertezas sobre até onde as consequências continuarão afetando o mercado brasileiro e a indústria da moda.