O que os bombardeios dos Estados Unidos e Israel no Irã têm a ver com a moda?

O conflito iniciado há pouco mais de uma semana pode afetar muito mais a cadeia fashion mundial do que se imagina

O que os bombardeios dos Estados Unidos e Israel no Irã têm a ver com a moda? | Foto: JUNI KRISWANTO / AFP

O que os bombardeios dos Estados Unidos e Israel no Irã têm a ver com a moda? À primeira vista, nada. Bombardeiros e tensões no Oriente Médio parecem pertencer a um universo completamente diferente daquele das passarelas e vitrines. Mas a verdade é que a indústria fashion está profundamente conectada à geopolítica, e embora o conflito esteja acontecendo distante das grandes capitais da moda, os efeitos desta guerra podem, sim, chegar, às araras das lojas.

Um dos primeiros grandes impactos surge com o fechamento do Estreio de Ormuz, situado entre o Irã, Omã e os Emirados Árabes, onde passa cerca de 20 a 25% do petróleo mundial. Instabilidades na região, como têm ocorrido durante os bombardeios, mexem com o mercado petrolífero e afetam diretamente a cadeia global da moda. O consumo de combustível encarece o frete e transportar roupas entre fábricas, centros logísticos e lojas se torna mais caro. A produção têxtil de tecidos sintéticos derivados do petróleo, como poliéster e nylon, também sente este impacto. Quando o preço da matéria-prima sobe, o custo de fabricação consequentemente aumenta.

Estreito de Ormuz | Foto: Reprodução

Uma segunda forma de impactar o mercado da moda dá-se ao afetar o comportamento do consumidor. Quando gasolina, energia e alimentos ficam mais caros, a população tende a rever gastos. Compras consideradas menos essenciais, como bolsas, roupas e sapatos, costumam ser as primeiras a serem cortadas dos orçamentos.

No setor de luxo, o clima emocional da economia também tem papel decisivo. Nos últimos anos, o Oriente Médio vinha se consolidando como um dos mercados mais importantes para grandes marcas, principalmente com a crise imobiliária da China e a crescente do consumo consciente nos Estados Unidos. Cidades como Dubai e Doha são sinônimo de polos de consumo sofisticado, com shoppings luxuosos, hotéis cinco estrelas e um fluxo constante de turistas de alta renda. Mas a desaceleração do turismo, encarecimento de gasolina, energia e alimentos, instabilidade local e uma população ameaçada não fazem bom terreno para vendas de luxo. Diante deste cenário, algumas marcas até fecharam temporariamente lojas na região.

O consumo de itens de luxo depende de algo chamado “feel-good factor”. Otimismo, estabilidade e a sensação de que o futuro parece promissor o suficiente para justificar gastar milhares de dólares em uma bolsa ou relógio tem papel importante. Mas conflitos armados tendem a produzir exatamente o efeito contrário. Imagens de mísseis cruzando o céu ou sistema de defesa interceptando drones circulam rapidamente nas redes sociais e nos noticiários, o que abala a percepção de segurança que sustenta esses mercados.

Ainda é cedo para saber o tamanho real do impacto que este conflito terá na economia e nas cadeias produtivas de moda. Mas, se for prolongado, preços elevados de energia podem pressionar ainda mais a indústria, desde a produção até o consumo. No fim das contas, a moda nunca esteve realmente isolada do mundo.