Para quem trabalha por aplicativo, trocar de carro não é uma decisão de consumo comum. O veículo é o próprio instrumento de trabalho e precisa conciliar custo de aquisição, manutenção, consumo e capacidade de permanecer muitas horas nas ruas. É nesse mercado que o governo federal decidiu flexibilizar as regras do Move Brasil, reduzindo de 12 para seis meses o período mínimo de atividade exigido para que motoristas de aplicativo tenham acesso às condições especiais de financiamento do programa.
Sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na segunda-feira (14), a nova regra exige que o motorista comprove seis meses de atividade na mesma plataforma e pelo menos 100 corridas realizadas nesse período. A mudança ocorre depois de dificuldades na liberação dos primeiros créditos e permite que profissionais que tiveram a inscrição rejeitada pelo critério anterior façam uma nova tentativa.
A flexibilização acontece em um momento em que a própria composição da frota de aplicativos começa a mudar. Dados daMachine mostram que os modelos mais utilizados ainda são carros compactos a combustão, como Volkswagen Polo, Chevrolet Onix, Hyundai HB20, Fiat Argo e Renault Kwid. São veículos associados a uma lógica bastante objetiva para quem trabalha nas ruas, com atenção a oconsumo, manutenção e uso urbano.
Ao mesmo tempo, os eletrificados já representam 41,4% das corridas analisadas. Entre eles, o BYD Dolphin Mini aparece na liderança, seguido pelo Dolphin. O dado mostra que a discussão sobre renovação de frota já não se resume à substituição de carros antigos por modelos mais novos. Ela envolve também uma mudança na tecnologia dos veículos que sustentam a atividade.
Como escolher?

Essa transformação ajuda a dar outra dimensão à política de crédito. Para o motorista, a escolha de um veículo pode alterar diretamente a estrutura de custos da atividade. Um carro mais econômico pode reduzir despesas ao longo do tempo, enquanto a aquisição de um modelo mais caro pode aumentar o compromisso financeiro mensal. O impacto do Move Brasil, portanto, dependerá não apenas de quantos profissionais conseguirão acessar o programa, mas de quais veículos eles conseguirão colocar nas ruas.
A nova regra tenta corrigir uma barreira identificada na primeira etapa do programa. Ao reduzir pela metade o período de atividade exigido e estabelecer um mínimo de 100 corridas, o governo busca adaptar o acesso ao crédito à dinâmica de uma atividade marcada por jornadas variáveis e, muitas vezes, atuação em diferentes plataformas.
O pedido de habilitação deverá ter resposta em até dez dias após o cadastro no gov.br. A medida também cria uma nova oportunidade para quem foi recusado anteriormente por não cumprir a exigência de tempo. “O novo programa pode incidir diretamente sobre uma frota já parcialmente alinhada às suas regras. Na prática, os modelos mais utilizados hoje pelos motoristas urbanos são justamente aqueles que mais se aproximam do perfil esperado para o financiamento, o que pode acelerar a renovação dos veículos e reforçar a presença de opções eletrificadas no setor”, diz Júlia Camossa, estatística responsável pelo Data Machine.
A flexibilização, porém, é apenas uma etapa. O acesso ao crédito não garante a compra do veículo, que continuará condicionado à capacidade de pagamento de cada profissional. Ainda assim, a mudança chega em um momento particularmente relevante para o setor. Ao mesmo tempo em que o governo tenta ampliar o acesso ao financiamento, a frota de aplicativos começa a incorporar uma parcela cada vez maior de veículos eletrificados, indicando que a próxima renovação poderá alterar não apenas a idade dos carros, mas também a lógica de custo e operação de quem trabalha com eles.