Aircross XTR: 7 lugares, menor preço – e um preço a pagar

Versão topo de linha do Citroën custa R$ 137.690 em oferta e aposta em motor 1.0 turbo para enfrentar a Spin e SUVs maiores. A conta fica mais interessante - e mais complexa - quando entram na equação o financiamento, o consumo e os apenas 42 litros de porta-malas com sete ocupantes

O Citroën Aircross XTR de sete lugares não é, necessariamente, o melhor SUV compacto do país. Nem tem essa pretensão. A versão topo de linha da Citroën talvez nem seja a mais confortável quando todos os bancos estão ocupados por adultos. Mas há uma característica que pode ser mais importante para quem precisa transportar uma família grande: o Aircross XTR está entre as alternativas mais acessíveis para levar sete pessoas a bordo. Aliás, a coluna Multieixos catalogou 14 opções de veículos para sete lugares numa busca em sites das montadoras e importadoras. Estão à venda por aqui modelos de até R$ 200 mil, como o Chevrolet Spin, o C3 Aircross e o Caoa Chery Tiggo 8, ou de R$ 200 mil a R$ 350 mil, que incluiria na peleja o Jeep Commander, o GWM Haval H9 ou o Mitsubishi Outlander PHEV.

Mas o fato é que, depois de uma semana ao volante da versão, a coluna constatou que a XTR tem uma proposta bastante clara: combinar espaço, motor e preço, abrindo mão de sofisticação e tecnologia para preservar uma relação custo-benefício difícil de encontrar entre os SUVs de sete lugares. A questão, agora, é saber se a Citroën encontrou um nicho ou apenas uma faixa de mercado na qual ainda há espaço para crescer. E qual seria, por sinal, esse nicho? Talvez família com três ou quatro filhos. Ou motorista de aplicativo. Ou para transporte eventual de parentes, que precisa ocasionalmente de sete lugares. Ou mesmo quem mora na cidade e não quer um SUV grande. 

A XTR está cotada no configurador “Monte o seu” da marca francesa pertencente à Stellantis em R$ 156.490. A versão testada tinha cor metálica branca com teto preto – elevando o valor para R$ 159.390. No entanto, com a guerra de preços travada com a chegada de marcas chinesas, a versão está sendo oferecida no próprio site por R$ 137.690. Isso significa um desconto oficial de fábrica de R$ 21,7 mil, numa redução temporária ao preço configurado de 13,6%.  A oferta, aliás, só vale para unidades em estoque. 

Numa simulação feita pela Multieixos em uma concessionária do Distrito Federal, as condições de pagamento ficaram da seguinte forma: parcelas de R$ 5.599,87 por mês em 24 prestações; entrada de R$ 27.538; e parcela final de R$ 11.767,75. No fim, num país em que até agiota se incomoda e critica as altas taxas de juros, o consumidor irá desembolsar R$ 173.702,63 no financiamento, considerando essas condições. Fica evidente que poupar e até vender o papagaio da mãe para juntar dinheiro e comprar à vista vale muito a pena. 

O Aircross XTR mantém uma estratégia recorrente da Citroën: oferecer design, espaço e funcionalidade tentando manter o preço abaixo de concorrentes mais sofisticados. Porém, a marca atualmente disputa um mercado muito mais agressivo, por conta das chinesas. Por isso, a XTR não está necessariamente disputando o consumidor que procura SUV, crossover ou minivan mais tecnológico. Ele pode estar disputando aquele cliente que pensa: “Preciso de sete lugares, não quero gastar R$ 200 mil ou mais e não faço questão de ter o carro mais sofisticado da categoria.”

Promoção
O principal concorrente da XTR de 7 lugares é o Chevrolet Spin automático, também de 7 lugares e cotado R$ 165.590 – com mais R$ 1.850 na escolha por algumas cores. Isso é interessante porque o Aircross a R$ 137.690 fica em R$ 16.300 abaixo da Spin LTZ de sete lugares, versão intermediária, uma diferença de quase 11%. Claro que há desconto. E mais: a coluna encontrou numa concessionária de São Paulo uma unidade Premier (topo de linha) a R$ 159.900 – e com alguns ‘benefícios’, como isenção da cobrança pela documentação e taxa 0% de juros. 

A Spin sempre foi, nos últimos anos, referência de carro familiar de sete lugares nessa faixa de preço. Mas vale lembrar: a minivan usa uma plataforma que foi base do finado Cobalt e tem um motor 1.8 que, embora confiável, é antigo e bebe mais: de 8,1 a 8,4km/l na cidade, contra 10,6 km/l do francês (ambos com gasolina), segundo dados oficiais das próprias montadoras. 

Em suma: o 1.8 de projeto envelhecido cobra seu preço na cidade, principalmente com câmbio automático e carro carregado. Já a mecânica 1.0 turbo do Aircross garante respostas rápidas de aceleração e melhor consumo urbano com gasolina em comparação à Spin automática. Veredito? O modelo da Chevrolet foca no bom torque em baixas rotações, porém consome e, consequentemente, polui mais; o da Citroën é mais ágil e mais econômico. 

Argumento de venda
O Aircross XTR, portanto, parece ‘assumir’ que não é mesmo o melhor carro do porte e tem como argumento de venda ser o veículo que permite ao consumidor chegar aos sete lugares gastando o mínimo possível — e, nesse aspecto, a proposta faz sentido. Numa conta meramente ilustrativa – e obviamente pouco científica –,a XTR de R$ 137.690 de 7 lugares custa R$ 19.670 por assento. 

É acessível? Afinal, não há nada além da Spin: o Fiat Doblò, por exemplo, já saiu de produção. O próximo Fiat Pulse de sete lugares ainda é projeto para o ano que vem. Citar aqui como concorrentes a Toyota SW4, a Chevrolet Trailblazer, a BYD Denza D9 e a Wey 07 é até covardia. Mesmo que o modelo avaliado tenha dimensões próximas às de alguns SUVs médios. Tem, por exemplo, 4,32 m de comprimento, 1,80 m de largura, 1,68 m de altura e 2,67 m de entre-eixos. Usa motor 1.0 turbo flex de até 130 cv e 20,4 kgfm, com câmbio CVT. O grande diferencial é oferecer sete lugares em uma carroceria relativamente compacta. A própria Citroën o classifica como B-SUV e afirma que é o único nacional do porte com sete lugares.

Mas, afinal, o que o consumidor ganha? No caso da XTR, preço: os demais concorrentes, custam muito acima – às vezes, até acima do bom senso. Comparar espaço é uma questão cheia de variáveis. Quanto à tecnologia, os concorrentes oferecem mais. O acabamento, idem. Mesmo na XTR, sobra plástico. No fim, o Citroën avaliado só está no mercado por que pode ser a compra mais racional – e para um determinado público. Ganha em preço, simplicidade e racionalidade de compra. 

Curiosidade: há 26 combinações diferentes para os bancos traseiros, com a terceira fileira podendo ser rebatida ou mesmo removida. Porém, há uma pegadinha: com os sete lugares em uso, o porta-malas fica em apenas 42 litros. Apenas com a terceira fileira rebatida chega a 493 litros – números banais se comparado aos dos concorrentes. Mas, enfim, vale reforçar: o Aircross XTR não é o SUV mais sofisticado, espaçoso ou tecnológico entre os modelos de sete lugares. Talvez nem queira ser. Seu espaço está em outro lugar: oferecer sete assentos, motor turbo e uma carroceria compacta por menos de R$ 140 mil. O preço é o argumento; os 42 litros de porta-malas com todos os bancos ocupados são o ‘preço’ a pagar por ele. 

E mais: 

  • O Aircross é sempre equipado com o motor T200 1.0 turbo flex, associado ao câmbio automático CVT de sete marchas simuladas, que entrega até 130 cv e 20,4 kgfm. 
  • Vai de 0 a 100 km/h em 10 segundos com gasolina – e um pouquinho menos com etanol. A velocidade máxima é de 197 km/h. 
  • Oferece uma lista de tecnologias de assistência básica: partida em rampa, limitador e regulador de velocidade, monitoramento de pressão de pneus. Na segurança, quatro airbags (dois frontais e dois laterais dianteiros). 
  • E internamente? Poucos botões aparentes, com visualização fácil, como os presentes no painel para o ar-condicionado e no volante para troca de música, volume, rádio/multimídia e comandos no quadro de instrumentos.
  • A central multimídia é de 10 polegadas. Não decepciona, mas também não empolga. O pareamento com com o Apple Car Play ou o Android Auto é via cabo ou bluetooth. 
  • Os bancos traseiros têm bom espaço e, vale registrar, saída de ar-condicionado no teto e dois carregadores USB-C. 
  • O Aircross permite remover totalmente a terceira fileira de bancos. Para quem não precisa dos setes lugares, ótimo.