Guerra de preço dos 0km derruba o dos semimovos em 21%

Estudo da Auto Avaliar mostra que valores praticados no mercado B2B de veículos de até três anos caíram 9,3% no primeiro semestre, quase quatro vezes a queda da Fipe. As maiores quedas são do Corolla 2025 (-21,2%), T-Cross 2025 (-20,9%) e HR-V 2025 (-20%)

A insana guerra de preços no mercado de carros 0km começa a produzir um efeito colateral para concessionárias e lojistas: a rápida desvalorização de veículos seminovos mantidos em estoque. Dados apresentados pela Auto Avaliar mostram que os preços efetivamente negociados no mercado B2B (empresa para empresa) de automóveis com até três anos de uso recuaram 9,3% entre janeiro e junho, enquanto a tabela Fipe caiu apenas 2,4% no mesmo período. Para o consumidor comum, é excelente; para os revendedores, nem tanto.

Por exemplo: em alguns modelos, a perda foi ainda mais acentuada. Levantamento da companhia aponta quedas superiores a 20% nos valores negociados de modelos tradicionalmente líquidos, como Corolla 2025 (-21,2%), T-Cross 2025 (-20,9%) e HR-V 2025 (-20%). Nivus, Corolla Cross, Yaris e SW4 também aparecem entre os veículos que mais perderam valor no primeiro semestre.

O movimento ocorre em meio à intensificação das promoções no mercado de veículos novos. Entre maio e agosto, montadoras anunciaram descontos, bônus e reposicionamentos de preços que chegaram a R$ 55 mil no Mitsubishi Outlander PHEV, R$ 50 mil no Suzuki e-Vitara, R$ 38,5 mil no Fiat Fastback Hybrid e R$ 28,5 mil no BYD Song Pro. Marcas tradicionais também entraram na disputa, com reduções e condições comerciais envolvendo modelos como Hyundai Creta, Jeep Compass, Volkswagen T-Cross e Nivus.

“O carro não precisa sair da garagem para perder valor. Quando uma montadora reduz significativamente o preço do 0km ou lança uma condição agressiva de financiamento, ela cria imediatamente uma nova referência para o consumidor. O seminovo que estava precificado com base no cenário anterior passa a carregar um risco de capital”, afirma Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar.

Conta do usado

A pressão fica mais clara quando se compara o custo efetivo de aquisição de um carro novo promocionado com o de um seminovo recente. Em uma simulação apresentada pela Auto Avaliar, um Jeep Compass Sport 0km, com preço público de R$ 174 mil, é negociado por R$ 147 mil após desconto de R$ 27 mil. Considerando um veículo usado de R$ 88 mil na troca, restariam R$ 59 mil para financiamento em 30 parcelas sem juros. 

Já um Volkswagen Taos Comfortline 2025 seminovo, com preço médio de R$ 164 mil e negociado por R$ 159 mil, exigiria financiamento de R$ 71 mil. A uma taxa de 1,6% ao mês, o custo total da compra chegaria a R$ 177.954. No exemplo, o seminovo terminaria R$ 30.954 mais caro que o 0km, além de ter uma parcela cerca de 50% maior.

“Quando o consumidor percebe que consegue levar um 0km pagando menos ou com uma condição financeira muito melhor, o preço do seminovo precisa reagir. O problema é que a concessionária pode ter comprado aquele carro semanas antes, usando uma referência de mercado que já deixou de existir”, explica Victorazzo.

Antes da tabela

Um dos principais alertas da Auto Avaliar é justamente a velocidade dessa mudança. Dados da companhia mostram que o preço médio transacional dos veículos 0km caiu 3,5% entre 2025 e junho de 2026, enquanto o preço público recuou 1,5%. Para a empresa, isso indica que descontos e condições efetivamente praticados nas lojas antecipam movimentos que demoram mais para aparecer nas referências tradicionais de preço.

O risco aumenta porque o capital permanece imobilizado enquanto o veículo espera comprador. Estudo citado na apresentação aponta giro médio de 36 dias para veículos usados, margem bruta média de 10,1% e ticket médio de R$ 89.781. Nesse intervalo, uma nova promoção de montadora ou mudança nas condições de financiamento pode alterar novamente o valor de mercado do automóvel.

“Durante muito tempo, a preocupação principal do lojista foi proteger a margem. Em um mercado no qual os preços mudam rapidamente, é preciso proteger primeiro o capital. Uma margem aparentemente boa pode desaparecer se o veículo permanecer no estoque durante uma nova rodada de descontos”, diz o executivo.

Entrada das chinesas 

A disputa tende a permanecer intensa. Em julho, marcas chinesas responderam por 22,8% do mercado no mês, com 60,5 mil unidades. Veículos provenientes da China também representaram 52,4% dos importados, enquanto as marcas já somavam 1.360 pontos de venda, equivalentes a 16,2% da rede considerada no levantamento.

Ao mesmo tempo, o mercado de usados continua movimentando volumes elevados. Entre janeiro e julho de 2026, foram negociados 7,9 milhões de automóveis e comerciais leves usados, uma relação de 4,88 usados para cada veículo novo vendido.

Para a Auto Avaliar, o cenário não significa que as concessionárias devam deixar de comprar determinados modelos, mas que a decisão precisa incorporar velocidade de desvalorização, liquidez e prazo esperado de venda. A companhia defende quatro frentes para reduzir a exposição: comprar pelo preço correto, reprecificar rapidamente, acelerar o giro e aumentar a rentabilidade de cada cliente com uma boa estratégia de F&I na venda de veículos.  O modelo prevê que, já na entrada do veículo, o lojista estabeleça teto de compra, canal provável de saída e prazo máximo de permanência no estoque.

A tecnologia também passa a ter papel nessa estratégia. A Auto Avaliar utiliza dados de mercado e inteligência artificial para recomendar ações como manter, reprecificar ou acelerar a saída de determinados veículos, mantendo a decisão final sob responsabilidade do gestor.  “O melhor momento para definir como sair de um carro é quando ele entra no estoque. Em um mercado estável, esperar algumas semanas para corrigir preço pode custar margem. Em uma guerra de preços, pode custar capital”, reforça Victorazzo.