A ideia de trocar a cobrança de uma porcentagem de cada corrida por uma mensalidade ou passe fixo já deixou de ser novidade para boa parte dos motoristas de aplicativos. O que ainda não está claro para eles é se a mudança no modelo de cobrança representa, de fato, uma mudança na renda. A adesão aparece condicionada a uma conta simples: quanto custa o passe, quantas viagens será possível fazer e, principalmente, quanto vai sobrar no fim do período.
O levantamento “Entre taxas e previsibilidade: profissionais de aplicativos opinam sobre novos modelos de trabalho”, realizado peloGigU em parceria com aJangada Consultoria de Comunicação, mostram que 86,2% já ouviram falar de modelos de assinatura em que o motorista paga um valor fixo e fica com 100% do valor das viagens. O conhecimento, porém, ainda é superficial para quase metade da categoria: 45% dizem já ter ouvido falar, mas não admitem conhecer os detalhes. Outros 41,2% afirmam conhecer bem a proposta.
A familiaridade com o conceito não se traduz automaticamente em disposição para mudar. Quando questionados se um modelo de valor fixo, que permitisse ficar com 100% das viagens durante determinado período, faria sentido, 31,7% disseram não ver vantagem. Entre os demais, 38,1% condicionam a decisão a fatores como preço da assinatura ou valor das viagens, e outros 15,3% afirmam que precisariam comparar o resultado com o ganho atual. Apenas 10,7% enxergam uma vantagem direta na previsibilidade.

O principal motivo para a cautela aparece em outra resposta. Para 42% dos profissionais, o maior receio em um modelo de assinatura é pagar pelo passe e não conseguir fazer viagens suficientes para compensar o custo. Outros 33,7% apontam o valor das próprias viagens como preocupação. Em suma, mesmo eliminando a taxa percentual, a plataforma não elimina a principal variável que determina a renda do motorista: a capacidade de gerar receita.
É justamente por isso que o modelo tradicional/atual ainda aparece como a opção preferida. Quase metade dos entrevistados, 48,7%, considera mais interessante continuar pagando uma cobrança percentual sobre cada viagem. Os formatos de valor fixo por horas ou dias de uso são escolhidos por 19,7%, enquanto 15,3% preferem uma cobrança fixa até atingir determinado patamar de ganhos. A resistência, portanto, não parece ser à inovação em si, mas ao risco de trocar uma taxa conhecida por um custo fixo que pode não se pagar.
A renda líquida é o principal critério para quem considera contratar um passe. Para 46,6%, o que mais pesaria na decisão seria conseguir aumentar o valor que efetivamente fica no bolso. Pagar menos taxas aparece em segundo lugar, com 29,8%, enquanto a previsibilidade dos ganhos é apontada por 11,8%. A diferença é relevante: reduzir a taxa não é percebido como um benefício suficiente se a mudança não produzir um ganho financeiro concreto.
Essa lógica também aparece quando os profissionais são perguntados sobre uma eventual mudança de comportamento. Apenas 14,6% mudariam imediatamente para um modelo de assinatura. Outros 31,8% aceitariam testar, mas 41% dizem que a decisão dependeria dos ganhos. Ao mesmo tempo, 32,8% não acreditam que esse tipo de cobrança terá grande adesão nos próximos anos, enquanto 30,8% apostam que os modelos de assinatura devem coexistir com o formato tradicional.
A pesquisa sugere, portanto, que o desafio para as plataformas que adotam novos modelos de cobrança não está apenas em explicar como eles funcionam. Está em provar que a mudança melhora a equação econômica do profissional. Tanto que 44,5% afirmam que planos alternativos pouco mudariam sua organização do trabalho porque o principal fator continua sendo o valor das viagens e entregas disponíveis. Outros 20,8% veem potencial, mas condicionam o benefício ao custo do plano.
Para Luiz Gustavo Neves, CEO do GigU, a cautela dos profissionais mostra que novos modelos de cobrança serão avaliados menos pelo formato e mais pelo resultado. “O motorista não está necessariamente procurando um modelo diferente de cobrança. Ele está procurando uma forma melhor de trabalhar e ganhar mais. Se a assinatura reduzir a taxa, mas não aumentar a renda líquida, ela se traduz em vantagem. Por isso, a decisão passa pela conta final: quanto custa para trabalhar e quanto efetivamente sobra”, afirma.