Kwid: carro popular ficou mais caro, mas subiu de categoria

Fusca Itamar custava cerca de R$ 7,2 mil em 1994, equivalentes a R$ 64 mil hoje. A versão Techno do hatch da Renault chega a R$ 85 mil, mas entrega segurança, tecnologia e equipamentos que eram impensáveis há três décadas

O carro popular brasileiro ficou muito mais caro em termos reais do que há 30 anos. Porém, ele passou a entregar um nível de segurança, conforto e tecnologia que era inimaginável nos anos 1990. Lembram do Fusca Itamar? Ele custava US$ 7.200 – o real havia sido lançado com paridade inicial de R$ 1 por US$ 1. Em julho e agosto de 1994, quando o Plano Real já havia nascido, os populares – Gol 1000, Uno Mille, Escort Hobby e Fusca — estavam em torno de R$ 7,2 mil. Mas quanto representaria hoje esse preço? 

Considerando a inflação acumulada até julho de 2026, os R$ 100 de julho de 1994 correspondem a R$ 893,26 hoje. Assim, o preço real do Fusca Itamar equivaleria a R$ 64,3 mil. É menos do que os quase R$ 85 mil cobrados atualmente, na tabela oficial, por um Renault Kwid na versão intermediária. Abrindo um parêntese: esse preço, aliás, pode cair para R$ 76 mil, dependendo de boas negociações (achei parcelas de R$ 810,45 com a cor preta) e em algumas concessionárias. Fechando o parêntese: em termos reais, portanto, o carro popular ficou mais caro. Mas a comparação não pode terminar aí. 

Em pouco mais de três décadas, também mudou — e muito — o que se espera de um carro de entrada. Quatro airbags, freios ABS, controle de estabilidade, direção elétrica, ar-condicionado, central multimídia, câmera de ré, conectividade e sistemas de assistência ao motorista fazem hoje parte do universo dos carros populares – sejam esses equipamentos obrigatórios por lei ou mesmo exigência do mercado. 

Em 1994, boa parte disso sequer existia em modelos dessa categoria. O Fusca Itamar até que era moderno para os padrões da época. Recebeu, por exemplo,  algumas melhorias importantes: freio hidráulico de circuito duplo, discos dianteiros, barra estabilizadora, para-brisa laminado e cintos dianteiros de três pontos retráteis. Mas a distância para o Kwid é gigantesca. Mesmo que se compare algo com o incomparável, surge a pergunta: quanto o brasileiro passou a pagar a mais pelo carro popular — e o que recebeu em troca?  A coluna Multieixos testou por uma semana o renovado Renault Kwid já na linha 2027 – e na versão Techno, a intermediária da linha. 

Todas as versões do Kwid têm uma caprichada lista de equipamentos de tecnologia, conforto e segurança: ar-condicionado, direção elétrica, vidros/travas elétricos básicos, painel digital de 7″, sensor traseiro. A Techno, que aposta na conectividade e no conforto, digamos assim, dispõe de itens meio banais, como retrovisores, maçanetas na cor do carro e chave do tipo canivete, ou relevantes – como 4 airbags, central multimídia de 10,1″ com Android Auto/Apple CarPlay sem fio, câmera de ré e comandos de áudio no volante. 

E há uma segunda constatação interessante: o aumento do preço real de um modelo de entrada não pode ser explicado apenas pela inflação. Parte importante da diferença está na transformação do próprio conceito. Em 1994, um carro popular não tinha airbags, ABS, direção assistida, ar-condicionado, vidros elétricos ou até retrovisor externo direito de série. Hoje, vários desses equipamentos são obrigatórios ou praticamente indispensáveis para aumentar sua competitividade.

O Fusca Itamar tinha 58,7cv, motor 1.600 a ar e câmbio de quatro marchas. O Kwid 2027 tem motor 1.0 de três cilindros, até 71cv, cinco marchas, além de toda a eletrônica embarcada. Em suma: o “popular” brasileiro ficou mais caro, mas também deixou de ser simplesmente um carro barato – ou pé-duro. Tornou-se um produto muito mais complexo, seguro e equipado. E isso é bom.

A versão testada pela Multieixos, já da linha 2027, ficou mais bonita – mesmo levando-se em conta a subjetividade desta abordagem. Destaque para o novo design, com dianteira já com a identidade global da Renault. As calotas e as rodas foram reestilizadas. O painel foi modernizado com plásticos de melhor textura (mas, claro, plástico). 

O banco inteiriço (fixo, sem encosto de cabeça) com padronagem diferenciada e o marcador de temperatura aprimorado também merecem ser citados como um novo requisito de convencimento de vendas. Até tem central multimídia de 10,1 polegadas com espelhamento sem fio para o Android Auto e o Apple CarPlay – coisas raras nesse segmento. Aliás, ela é a mesma utilizada no Kardian, oferecendo bem mais recursos que a anterior – como informações de consumo, condução e funcionamento do veículo. Na versão Techno, há comandos de áudio no novo volante multifuncional. Por fim, tem painel digital, câmera de ré e entrada USB de carga rápida.

Desempenho
O motor 1.0 de 3 cilindros flex aspirado deixa o carrinho impressionantemente ágil. Até porque ele pesa pouco mais de 800 kg. A potência de até 71cv e o torque de 10kgfm são demasiadamente satisfatórios para o dia a dia nas cidades e se abastecido com gasolina. O câmbio manual de 5 marchas tem trocas macias. 

O consumo, segundo dados do Inmetro, é de até 14,4 km/l na cidade e 15,4 km/l na estrada – ambos com gasolina. As dimensões da linha 2026 foram mantidas: 3,73 metros de comprimento, 1,57 m de largura, 1,47 m de altura e 2,42 m de entre-eixos. O porta-malas comporta 290 litros. 

É óbvio que um carro, mesmo que tenha sido incrementado na última atualização, tem alguns limites. Pessoas altas no banco traseiro, sofrem, sim. O acabamento tem fragilidades, com uso extensivo de plásticos simples. A versão Techno não foi testada em rodovias, vale frisar. Aliás, o desempenho é limitado? Pode ser, e certamente carece de fôlego em ultrapassagens, mas atende muito bem na cidade. E o Kwid, claro, foi feito para a cidade, no dia a dia indo para o trabalho, faculdade – e principalmente em Brasília, onde o transporte público deixa muito a desejar.

Alguns itens de série – Versão Techno

  • 4 airbags (2 frontais e 2 laterais)
  • Alerta visual e sonoro de não utilização do cinto de segurança de todos os ocupantes
  • Ar-condicionado
  • Assistente de partida em rampa
  • Computador de bordo
  • Controle eletrônico de estabilidade
  • Direção elétrica
  • Indicador de temperatura externa
  • Luzes de circulação diurna (DRL) em LED
  • Painel de instrumentos digital TFT de 7”
  • Sensor de estacionamento traseiro
  • Sistema de monitoramento da pressão dos pneus 
  • Sistema Start & Stop
  • Tacômetro
  • Travas elétricas das portas
  • Vidros dianteiros elétricos
  • Chave tipo canivete
  • Câmera de ré
  • Controles de áudio no volante
  • Lanternas obscurecidas com assinatura em LED
  • Maçanetas externas na cor da carroceria
  • Retrovisores elétricos
  • Retrovisores em preto brilhante
  • Roda de aço biton de 14”
  • Sistema multimídia com tela de 10.1″ com espelhamento de smartphone sem fio
  • 2 USB-C