EX2, o elétrico da Geely: mais carro por menos dinheiro

Modelo tem preço competitivo, pacote de equipamentos caprichado e entrega ao consumidor a sensação de estar levando um carro de categoria superior. Em suma: o custo-benefício não é apenas percepção — é real

O compacto elétrico EX2 foi o segundo automóvel mais vendido no varejo (sem contar locadoras ou empresas) em julho, com 5,7 mil carros. No acumulado de 2026, a Geely vendeu 20,5 mil. Com esse expressivo resultado, a companhia se consolida como a montadora chinesa de crescimento mais rápido no setor de veículos eletrificados do país. Mas a que se deve o desempenho da Geely, que chegou no Brasil há apenas um ano? A turma do marketing talvez tenha uma explicação melhor. Mas o fato é: há dois fatores que, somados e atuando em etapas e proporções diferentes na psicologia do consumidor, geram o que chamamos de custo-benefício. O EX2, por exemplo, cria a percepção de que o consumidor está levando um carro de categoria superior pelo preço de um compacto. A versão Max, testada por uma semana pela Multieixos, atende neste caso aos desejos e expectativas do comprador. E esse requisito é básico: se um produto não faz o básico muito bem, nada vai salvá-lo.

O EX2 oferece segurança, economia, conforto e, por fim, um design bem interessante, sóbrio (embora haja muita subjetividade nesse quesito). São, enfim, detalhes que o consumidor brasileiro valoriza muito: bom pacote de equipamentos, espaço interno e, eureca, preço bem competitivo. E a Geely fez mais: colocou o modelo como um carro com características de uma categoria superior. O preço foi só o chamariz básico. Até agora, a marca faz as pessoas gastarem dinheiro acreditando naquilo que tem prometido. Vejamos, porém, como será quando os primeiros clientes voltarem às concessionárias para serviços de pós-venda. 

O que se espera de um carro de R$ 136,8 mil? Vai da desnecessário pintura biton, com o teto na cor preta, ao freio de estacionamento eletrônico (ainda há carro por aqui de R$ 200 mil acima com aquela terrível alavanca no meio do salão). Da suspensão independente nas 4 rodas aos seis airbags. Do piloto automático adaptativo, que controla sozinho a velocidade, a aceleração e os freios do carro, a alerta de mudança de faixa. Da frenagem  automática de emergência a uma câmera panorâmica de 540º. Do banco do motorista com ajuste elétrico ao carregador de smartphones por indução. Do multimídia de 14.6″ de qualidade – de excelente resolução e respostas rápidas – a saídas de ar para o banco traseiro. 

Pois é: mesmo sendo um compacto de entrada da marca, o EX2 tem – na versão Max, testada – tudo isso. O consumidor acredita que está “levando mais carro pelo mesmo dinheiro”. Claro que tudo pode ser melhorado. Como (olha o pós-venda aí de novo) rede de concessionárias ainda embrionária e um receio, já diminuindo, de excessiva desvalorização numa futura revenda. Ou, o que não é um problema específico deste modelo, a ainda reduzida estrutura rodoviária para abastecimento de veículos elétricos. Ou mesmo da capacidade do porta-malas, pequeno (375 litros) para quem trabalha como motorista de aplicativo, por exemplo. Ou a autonomia de rodagem, inferior a de alguns concorrentes. E, afinal, vale reforçar: não espere sofisticação ao entrar na cabine. O acabamento de plástico rígido está presente em algumas partes. Mas, pelo preço cobrado….

Exigência
O EX2 fornece, no geral, mais coisas legais do que ruins. Essa invasão chinesa vai fazer com que as marcas acomodadas, deitadas no berço esplêndido tupiniquim, tenham em breve que obrigatoriamente incluir nos seus modelos seis airbags, banco de motorista com regulagem elétrica e freio de estacionamento eletrônico, por exemplo. Em suma: o que agora é surpresa agradável vai ser uma exigência amanhã, pode apostar. 

O hatch já nasceu como elétrico – e isso é uma grande vantagem. Tem piso plano e, consequentemente, maior espaço interno. Como todo elétrico, tem excelente aceleração, motivada por causa do torque instantâneo, da ausência de marchas e da simplicidade mecânica, enfim. E ele ainda vai absorver para si outra vantagem: a nacionalização, ainda em 2026. Ele será fabricado no Paraná, no complexo da Renault em São José dos Pinhais, próximo a Curitiba. 

Vale lembrar: a chinesa passou a deter 26,4% das operações da francesa no Brasil. Ah, a Geely não é uma empresa neófita: controla, por exemplo, a Volvo, a Lotus (aquela mesma da F1) e a Polestar. Assim, reduz uma dificuldade relevante para novas marcas, pois se vale do uso da estrutura da Renault (bem estabelecida com rede de concessionárias, assistência técnica e peças).

Por todas essas características citadas, o EX2 é um carro muito ágil. É legal até mesmo para divertimento nas ultrapassagens e retomadas. É um carro na mão, mesmo com direção elétrica – e é daqueles que você tem controle da situação. A suspensão parece ter sido feita para as estradas brasileiras, segurando os trancos do péssimo asfalto. Tudo bem equilibrado. Como deve ser um carro, independentemente do preço, da marca, da origem geográfica.