Quatro dicas para mulheres que vão comprar um carro

Vittória Gabriela, da "Dona Meu Destino", ensina a planejar a compra do modeloo. Ela desmonta mitos e aponta a conta que ninguém pode pular

Você sabe quanto custa, de verdade, o carro dos seus sonhos? Ou quanto ele vai custar a longo prazo, incluindo manutenções? Isso tudo encaixa no seu orçamento? Em 2026, ter um carro, seja para trabalhar, organizar a rotina diária ou garantir liberdade de deslocamento, segue entre os principais objetivos financeiros dos brasileiros. Levantamentos recorrentes do setor automotivo e de crédito indicam que a compra do veículo próprio continua entre os três principais bens de desejo das famílias – ao lado da casa própria e da estabilidade financeira.

Porém, não basta só querer. É preciso colocar os números na mesa antes de decidir, já que o cenário é de uma economia desafiadora, com juros altos e preços elevados. “O carro não pode ser uma decisão emocional. Ele precisa caber no orçamento hoje e, caso seja financiado, continuar cabendo daqui a dois ou três anos”, afirma Vittória Gabriela, goiana de 28 anos, empreendedora e fundadora da “Dona Meu Destino”, uma das maiores comunidades digitais de mulheres motoristas do Brasil, que reúne quase 1 milhão de seguidoras.

Focada em empoderamento, troca de experiências e educação financeira no universo automotivo, a “Dona Meu Destino” reforça que educação e planejamento financeiro são aliados poderosos também para mulheres que querem conquistar o primeiro carro com autonomia e sem armadilhas. “O planejamento financeiro é tão importante quanto escolher o modelo do carro. Saber negociar, comparar taxas e aprender a ler contratos faz diferença, seja comprando ou vendendo.” Para ela, o momento do mercado é de maior consciência sobre o endividamento e, principalmente, sobre como a negociação pode fazer a diferença a longo prazo.

Por isso, Vittória atua ajudando mulheres a entender melhor de carros, conquistar autonomia e tomar decisões mais conscientes. Ela integra a ascensão de comunidades femininas voltadas à mobilidade, um movimento que sinaliza uma mudança estrutural no mercado automotivo. Não se trata apenas de dirigir, mas de decidir, negociar e planejar com segurança e informação. “Nosso foco é tirar o medo da decisão financeira, atuando na oferta de informações que ajudem nesse processo. Quando a mulher entende dele, ela deixa de depender da opinião alheia, que pode levá-la a ser ludibriada, e passa a conduzir a própria escolha.”

Segundo Vittória, saber como proceder em uma decisão tão importante quanto essa é essencial, principalmente em ocasiões em que a compra envolve carros usados, já que é nesse mercado que se encontram a maioria das negociações. Em 2025, o país registrou 18,5 milhões de transferências de veículos usados e seminovos, contra cerca de 2,5 milhões de carros 0km licenciados, segundo a Fenauto, a federação dos revendedores de veículos. 

Na prática, o brasileiro comprou sete carros usados para cada novo, consolidando uma inversão estrutural no consumo automotivo, tendência que se mantém em 2026. “Isso acontece devido ao encarecimento do zero-km. Em apenas cinco anos, o preço dos modelos de entrada saltou de cerca de R$ 53 mil, em 2021, para até R$ 81 mil em 2026, elevando a barreira de acesso ao carro novo”, explica ela.

Mas, é no mercado de seminovos, que passou a operar em patamares recordes, se encontra o perigo, segundo a goiana, principalmente para as mulheres, que sofrem discriminação no mercado. “Muitos acham que podem empurrar carros com problemas, por exemplo, ou com financiamentos longos e caros, pela falta histórica de experiência das mulheres nessa área.”

Contudo, isso está mudando. Especialmente por ações como a da Vittória, que ajudam na tomada de decisão das mulheres. Ela explica em suas redes, por exemplo, a importância de buscar a opinião de um mecânico de confiança, que pode fazer toda a diferença na hora da compra de um veículo usado. 

“Tive acesso ao caso de uma mulher que adquiriu um carro financiado que havia sofrido avarias em um alagamento. Ela não foi informada sobre esse histórico no momento da compra e, logo após sair da loja com o veículo, precisou realizar diversos reparos mecânicos nele. Se tivesse buscado uma segunda opinião técnica antes da compra, poderia ter escolhido um veículo em melhores condições. Agora, além dos custos constantes de manutenção, terá de arcar por um longo período com uma dívida elevada por um carro que se desvaloriza rapidamente e terá pouco valor em uma futura troca.”

Para ela, é igualmente fundamental buscar informações sobre a reputação das lojas e contar com indicações de consultores que realmente auxiliem na escolha de um bom veículo. Também é importante ter noções básicas sobre as condições ideais de um carro e saber quais perguntas fazer no momento da compra. Além disso, muitas lojas, inclusive, oferecem garantia para carros usados, o que funciona como um indicativo adicional da qualidade do automóvel comercializado. “Carro é meio, não fim”, resume Vittória (foto abaixo). “Quando ele é bem planejado, vira liberdade. Quando não é, vira peso.”

Pesquisa inédita 

A comunidade liderada por Vittória – “Dona Meu Destino” –  realizou uma pesquisa em suas redes sociais, que reúnem quase um milhão de mulheres, revelando como elas encaram a decisão de comprar ou trocar de carro. O levantamento ouviu participantes de diferentes regiões do país e indica que, para a maioria, esse processo ainda é marcado por insegurança e forte dependência de apoio externo na tomada de decisão.

Quando questionadas se pensam em comprar ou trocar de carro, 23,2% das mulheres afirmaram que pretendem fazer isso em até um ano. Outras 12,6% disseram que o plano é para até dois anos, enquanto 8,9% projetam a compra em até três anos. Um grupo expressivo, de 36,8%, afirmou que deseja comprar ou trocar de carro, mas sem prazo definido. Já 18,4% disseram que não pretendem adquirir um veículo.

Em relação à posse do carro, 62,1% afirmaram que têm veículo próprio e o utilizam sozinhas. Outras 23,07% disseram que o carro é da família e dividido com outras pessoas. Já 12,6% não possuem carro atualmente, mas afirmaram que gostariam de ter um. Uma parcela menor declarou que divide o uso do veículo com quem não é da família.

O histórico de compra também revela diferenças importantes. 18,04% das entrevistadas afirmaram que já compraram um carro sozinhas. Outras 50,5% disseram que já passaram pelo processo de compra com a ajuda de alguém, enquanto 26,3% ainda não compraram, mas pretendem fazê-lo. Um grupo menor afirmou que nunca comprou e não pretende comprar no momento.

Quando o assunto é sentimento, a decisão de compra desperta emoções diversas. Para 26,3%, o principal sentimento é a confusão diante de tantas opções disponíveis no mercado. Já 24,2% relataram empolgação, enquanto 23,2% disseram sentir medo de errar. A insegurança aparece para 14,7%, e a ansiedade para 8,4%. Uma parcela menor afirmou sentir confiança ao pensar na compra de um carro.

O apoio na tomada de decisão também se mostrou relevante. Para 39,5%, a família é quem mais ajuda ou ajudaria no momento da compra. Outras 23,7% disseram contar principalmente com o parceiro ou parceira, enquanto 16,8% recorrem a pesquisas na internet. Apenas 10,5% afirmaram que tomam a decisão sozinhas, e o restante se divide entre quem busca apoio de amigos ou ainda não sabe por onde começar.

As respostas vieram de mulheres de diversas regiões do país: 56,3% são do Sudeste, 16,8% do Sul, 8,9% do Nordeste e 14,2% do Centro-Oeste. O percentual restante se divide entre participantes do Norte e mulheres que moram fora do Brasil.

Dicas – Checklist para a compra de um carro

Para quem está transformando o desejo do carro próprio em uma decisão planejada, seguem quatro dicas antes de comprar (ou trocar) de carro:

  1. O primeiro passo não é o test-drive, é o orçamento

Antes de qualquer visita à concessionária ou clique em anúncio, a pergunta central é objetiva e, muitas vezes, ignorada: Quanto eu posso gastar sem desorganizar minha vida financeira? Especialistas em finanças pessoais recomendam olhar além do valor do carro e considerar o Custo Total de Propriedade (TCO), que inclui:

  • IPVA e licenciamento
  • Seguro
  • Manutenção preventiva e corretiva
  • Combustível
  • Depreciação

Uma regra prática é não comprometer mais que 10% a 15% da renda líquida mensal com os custos totais do veículo (parcelas, combustível e manutenção). Isso ajuda a manter o orçamento equilibrado e evita o famoso “carro come salário”. “O erro mais comum que vemos na comunidade é a pessoa conseguir pagar a parcela, mas não conseguir sustentar o carro”, explica Vittória. “Planejamento não é só comprar. É manter.”

  1. Dinheiro na mão, consórcio ou financiamento: o que vale mais a pena?

Pagamento à vista

  • É a opção mais barata no longo prazo, pois elimina juros.
  • Para quem conseguiu formar reserva ou vender outro bem, pode significar economia de dezenas de milhares de reais.
  • Vale a pena considerar carros usados mais recentes ou até negociar desconto no zero-km.

Consórcio

  • Tem ganhado espaço entre consumidores mais organizados.
  • Não há juros, apenas taxa administrativa.
  • Funciona melhor para quem não tem urgência e prioriza previsibilidade.
  • Opera como um plano de compra coletiva, com parcelas mensais e possibilidade de contemplação por sorteio ou lance.

“Muitas mulheres entram no consórcio como forma de se comprometer com um objetivo sem cair em armadilhas de crédito caro”, afirma Vittória.

Financiamento

  • Segue sendo o caminho mais utilizado no Brasil.
  • Em 2025, o financiamento de veículos atingiu 7,3 milhões de unidades, segundo a B3, o maior volume em 14 anos.
  • Desse total, 4,6 milhões foram de veículos usados e 2,6 milhões de veículos novos.

“Aqui, comparar taxas, prazo e CET é decisivo. Pequenas diferenças podem representar milhares de reais a mais no custo final”, destaca Vittória.

Dica: simule financiamento em diferentes instituições antes de fechar. Taxas que parecem pequenas podem representar milhares de reais a mais no total.

  1. Escolher o carro certo é reduzir risco

Quilometragem e histórico

  • A quilometragem é um indicador importante, mas sozinha não garante bom negócio.
  • Verifique:
    • Histórico de revisões e manutenção
    • Existência de batidas ou reparos estruturais
    • Recalls e pendências documentais

Inspeção técnica

  • Levar o carro a um mecânico de confiança antes da compra pode revelar defeitos ocultos que o test-drive não mostra.

Modelos com bom custo-benefício

  • Honda Civic e Toyota Corolla: entre R$ 85 mil e R$ 120–130 mil.
  • Chevrolet Onix, Hyundai HB20 e hatches similares: entre R$ 50 mil e R$ 80–90 mil.
  • Volkswagen Gol: entre R$ 35 mil e R$ 60 mil ou mais, conforme versão e quilometragem.
  • Fiat Mobi, Renault Kwid e compactos: faixas perto de R$ 50 mil ou menos.
  • Até R$ 40 mil: versões mais antigas de Gol, Palio e Fiesta.
  • Entre R$ 40–80 mil: veículos urbanos de 5 a 10 anos, comuns para primeira compra ou troca.

“Modelos com boa revenda reduzem risco na saída”, destaca Vittória.

  1. Dicas de ouro na compra e na venda

Na hora de comprar

  • Não se apaixone pelo visual; foque no estado geral e procedência.
  • Faça test-drive e revisão mecânica antes de fechar negócio.
  • Pesquise o valor médio do modelo (tabela FIPE é referência).
  • Desconfie de preços muito abaixo da média.
  • Exija documentação e histórico.

Na hora de vender

  • Mantenha a documentação atualizada e revisões em dia; isso aumenta o valor do carro.
  • Anúncios detalhados, com quilometragem correta e fotos de qualidade, ajudam a vender mais rápido.
  • Transparência evita problemas jurídicos.