Motorista de apps enfrenta inflação de 56% sem aumento proporcional na renda

Em Brasília, lucro mensal é R$ 2.417,72, embora o profissional tenha uma receita R$ 6.428,57. Os dados sugerem necessidade de regulação para equilibrar lucro corporativo e renda dos condutores

A alta de 56,08% no custo das corridas por aplicativo em 2025, registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, escancara um desequilíbrio estrutural no setor de mobilidade urbana digital. Enquanto passageiros enfrentam preços cada vez mais elevados, os motoristas nem sempre veem sua remuneração acompanhar esse movimento. 

A discrepância levanta questionamentos sobre o modelo de negócios das plataformas, a eficácia da precificação dinâmica e a necessidade de regulação para equilibrar lucro corporativo e renda dos condutores. De acordo com levantamento do GigU, a renda líquida dos motoristas varia conforme a cidade e a carga horária semanal. 

Em Brasília, uma cidade conhecida pelo alto custo de vida, o profissional que trabalha 50 horas por semana ganha R$ 6.428,57 – o que dá um faturamento anual de R$ 77.142,84 e lucro, no mesmo período, de R$ 29.004,72. Ele gasta só com gasolina R$ 25.311,60. Na capital federal, 2.120 têm carro próprio (declarados ao estudo da GigU). O lucro mensal não passa de R$ 2.417,72.

Em São Paulo, o condutor que trabalha 60 horas por semana registra lucro médio de R$ 4.252,24 após a dedução de custos como combustível e IPVA. No Rio de Janeiro, o valor médio é de R$ 3.304,93 para uma jornada de 54 horas semanais, enquanto em Belo Horizonte o lucro gira em torno de R$ 3.554,58 na mesma carga horária. 

“É uma jornada de trabalho exigente, mas a autonomia e a rentabilidade, que superam algumas ocupações tradicionais, acabam sendo grandes atrativos”, afirma Luiz Gustavo Neves, co-fundador e CEO da plataforma. 

Estudos internacionais reforçam esse descompasso. Uma pesquisa da Universidade de Oxford analisou 1,5 milhão de corridas da Uber no Reino Unido e identificou queda nos rendimentos médios dos motoristas desde a implementação de novos algoritmos em 2023. Já dados da Columbia Business School apontam aumento expressivo nos descontos aplicados pelas plataformas ao longo dos últimos três anos, pressionando ainda mais a remuneração dos condutores. 

No Brasil, a divergência entre o preço pago pelo consumidor e o valor efetivamente recebido pelo motorista intensifica a pressão por regulação. O Projeto de Lei Complementar 152/2025, em debate no Congresso Nacional, propõe limitar a comissão das plataformas a 30% e estabelecer regras mais claras para garantir previsibilidade de renda aos profissionais. 

As empresas, por sua vez, argumentam que a limitação pode afetar a lógica da precificação dinâmica e impactar a oferta do serviço. O cenário evidencia um dilema central do setor: como conciliar algoritmos de precificação sofisticados, competitividade entre plataformas e transparência na relação com os motoristas. 

À medida que o mercado amadurece, o desafio regulatório será equilibrar eficiência econômica, justiça na remuneração e sustentabilidade do serviço, evitando que a expansão lucrativa das empresas ocorra às custas de quem efetivamente sustenta a operação nas ruas.