Startup utiliza IA para reduzir consumo de água

Com perdas de 45% na distribuição nas maiores cidades, país vê avanço de soluções com Inteligência Artificial para reduzir desperdícios

Segundo a companhia, a economia média obtida entre clientes gira em torno de 30%. Foto: Pedro França / Agência Senado

Mesmo sendo um dos países com maior disponibilidade de água doce no mundo, o Brasil enfrenta perdas estruturais que expõem fragilidades históricas na gestão hídrica. Dados do Instituto Trata Brasil mostram que, nas 100 maiores cidades do país, a média de perdas na distribuição chega a 45,43% — quase metade da água tratada se perde antes de chegar ao consumidor. O volume desperdiçado seria suficiente para abastecer milhões de pessoas ao longo de um ano.

O problema se agrava em um cenário de eventos climáticos extremos, crescimento urbano desordenado e pressão por metas ambientais mais rígidas. Para as empresas, o desperdício de água deixou de ser apenas uma questão ambiental, tornando-se um risco financeiro e reputacional.

É nesse ambiente que cresce o uso de Inteligência Artificial (IA) aplicada à gestão hídrica. A T&D Sustentável, startup especializada em economia de água para empresas, condomínios, hotéis e hospitais, afirma já ter contribuído para a economia de mais de 1,3 bilhão de litros de água no país.

A tecnologia começa pela análise automatizada de faturas e estruturas tarifárias, etapa em que algoritmos identificam inconsistências e oportunidades de redução de custos. Na fase operacional, sensores monitoram o consumo em tempo real, com coleta de dados minuto a minuto. 

A partir desse histórico, a IA estabelece padrões de uso e emite alertas imediatos quando detecta variações fora do comportamento esperado — como indícios de vazamentos, falhas em equipamentos ou consumo anormal. A remuneração está vinculada aos resultados obtidos. A empresa não cobra pela implantação do sistema e recebe metade da economia gerada ao cliente.

Segundo a companhia, a economia média obtida entre clientes gira em torno de 30%, com casos que teriam alcançado até 80% de redução. Além da diminuição no consumo de água, a empresa estima ter reduzido 700 milhões de litros de efluentes e mitigado 50 toneladas de CO₂ associadas às operações.

“Nossa abordagem com IA permite uma precisão e uma escala que antes eram inimagináveis, transformando a gestão da água de uma tarefa complexa em um processo inteligente e altamente eficiente, mas sempre com o toque humano essencial”, conta Felipe Mendes, sócio da T&D Sustentável.

Automação 

Especialistas avaliam que soluções baseadas em dados tendem a ganhar espaço à medida que critérios ESG se consolidam nas decisões de investimento e na governança corporativa. A automação permite escala, padronização de análises e resposta rápida a falhas operacionais — fatores críticos em um país onde a ineficiência hídrica representa não apenas impacto ambiental, mas perda econômica direta.

Embora a digitalização não substitua investimentos estruturais na rede pública, o avanço de tecnologias de monitoramento e análise preditiva indica uma mudança de postura no setor privado: eficiência hídrica passou a integrar a estratégia de competitividade e gestão de risco das empresas brasileiras.