A restauração florestal no Brasil pode movimentar até US$ 30 bilhões por ano e gerar 2,5 milhões de empregos, segundo estimativas apresentadas durante a Rio Climate Action Week. Especialistas destacaram que o país tem potencial único de liderança global no tema, mas ainda enfrenta barreiras para consolidar esse mercado.
Para Thaís Ferraz, diretora de programas do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a recuperação de áreas degradadas é estratégica tanto para o cumprimento das metas climáticas, por meio das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), quanto para o desenvolvimento econômico. “O Brasil tem uma condição única, com milhões de hectares degradados e a meta de recuperar 12 milhões de hectares até 2030”, afirmou.
Ela pondera, no entanto, que o setor ainda precisa superar entraves como a titularidade da terra e o acesso a financiamento. “Existem recursos disponíveis, mas o acesso ainda é difícil, porque o mercado é novo e exige garantias. É preciso padronização em contratos, mecanismos financeiros e no mercado de carbono para alavancar a restauração”, explicou, citando a iniciativa Nature Investment Lab.
Ferraz também destacou a importância de construir uma cadeia de valor sólida, que envolva agricultura familiar e sistemas agroflorestais. “Não basta restaurar. É preciso garantir desenvolvimento local, fortalecer viveiros, redes de sementes e gerar renda para agricultores. A filantropia tem um papel inicial importante, mas precisamos atrair capital comercial no momento certo”, disse.
A diretora de programas do Instituto Belterra, Thaís Kazequer, reforçou que a restauração produtiva pode unir clima, biodiversidade e desenvolvimento social. “Temos 70 milhões de hectares de terras degradadas no Brasil. Foi com esse olhar que a Belterra nasceu, para potencializar e escalonar a agrofloresta no país”, afirmou.
Segundo Kazequer, o desafio maior é ampliar a escala das soluções. “Escalonar agrofloresta não é tarefa fácil. Precisamos trabalhar na mesma direção, desenvolvendo soluções inovadoras e parcerias no território e também estratégicas, que consolidem esse arcabouço”, disse.
Ela explicou que o Instituto Belterra (BEL) atua no fortalecimento desse ecossistema, com foco em pesquisa, desenvolvimento e apoio a comunidades locais. “O BEL investe em P&D, cria novos negócios, capacita pessoas e atua em campo com quilombolas e ribeirinhos. Restaurar hectare por hectare, em territórios fragmentados, é um desafio, mas é isso que vai garantir que as comunidades façam parte dessa transformação”, destacou.
Viveiros e sementes
Representando a base da cadeia de restauração, a vice-presidente da Nativas Brasil, Bárbara Pellegrini, ressaltou a força dos viveiros e das redes de sementes. “Não existe restauração sem sementes e sem viveiros. O setor é novo, mas está preparado. Somos uma vanguarda”, disse.
Para ela, a cooperação é essencial para estruturar o mercado. “Quando nos reunimos em associação, mostramos que não somos concorrentes, somos cooperadores. Estamos juntos para estruturar o essencial”, afirmou.
Pellegrini também chamou atenção para a disponibilidade de terras subutilizadas. “No Rio de Janeiro, 52% da área são pastos abandonados ou subutilizados. O desafio é conquistar a confiança do proprietário, para que ele não veja uma terra nua como mais valiosa do que uma terra em floresta.”
Apesar das dificuldades, ela defendeu a capacidade do setor de cumprir a meta brasileira de restauração. “Nós sabemos fazer, sabemos os obstáculos e podemos ir além dos 12 milhões de hectares. Mesmo representando um viveiro pequeno, estamos aqui para mostrar a força dessa base. Queremos restaurar tudo que precisa ser restaurado. Vamos adiante”, enfatizou.