Com menos de 10% dos resíduos reciclados, o Brasil enfrenta um desafio estrutural que vai além da ampliação da coleta seletiva e passa pela necessidade de dar transparência e rastreabilidade aos dados do setor.
Um levantamento do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), aponta que o país gerou mais de 81,6 milhões de toneladas de resíduos urbanos, dos quais cerca de 34% ainda tiveram destinação inadequada — o equivalente a mais de 28 milhões de toneladas descartadas em lixões ou aterros controlados.
O índice de reciclagem, de apenas 8,7%, evidencia a distância em relação a metas mais ambiciosas, como as de “lixo zero”, que pressupõem a redução máxima do envio de resíduos para aterros. Nesse contexto, a gestão de resíduos deixa de se concentrar apenas na ampliação da reciclagem e passa a exigir a comprovação dos resultados. Mais do que anunciar metas, empresas e governos são pressionados a apresentar dados consistentes, passíveis de verificação e auditoria.
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Parte dos materiais considerados reciclados ainda percorre cadeias pouco estruturadas, com presença relevante de informalidade. Isso dificulta a mensuração precisa dos fluxos e abre espaço para inconsistências nos números reportados. Um exemplo é o fato de que uma parcela das embalagens recuperadas pode ter origem em municípios que ainda utilizam lixões, o que levanta questionamentos sobre a qualidade socioambiental desses processos.
Apesar de avanços recentes, como o aumento no volume de resíduos encaminhados à reciclagem, um o principal gargalo está na governança das informações. Sem sistemas confiáveis de rastreamento, torna-se difícil comprovar se os resíduos declarados como reciclados foram, de fato, corretamente destinados.
Essa lacuna afeta diretamente empresas sujeitas a metas de logística reversa, que precisam demonstrar o cumprimento de obrigações legais e compromissos ambientais. A exigência crescente por dados auditáveis também amplia o risco regulatório e reputacional em caso de inconsistências.
Na prática, a rastreabilidade tende a se consolidar como infraestrutura essencial da política de resíduos. A capacidade de acompanhar o percurso dos materiais, da coleta à destinação final, é vista como condição para dar credibilidade aos números e permitir a comparação entre metas e resultados efetivos.
Sem esse nível de transparência, a evolução dos indicadores pode permanecer limitada, mesmo diante de avanços pontuais na reciclagem. O desafio, portanto, não é apenas aumentar o volume reciclado, mas assegurar a integridade das informações que sustentam essa transformação.