Empresas deixam Moratória da Soja e acendem alerta ambiental

WWF-Brasil vê retrocesso no combate ao desmatamento e alerta para insegurança jurídica e riscos climáticos, econômicos e reputacionais ao agronegócio brasileiro

Entre 2009 e 2022, o desmatamento caiu 69% nos municípios monitorados, enquanto a área de soja na Amazônia cresceu 344%. Foto: Wenderson Araujo/CNA.

A decisão de grandes tradings de grãos de abandonar a Moratória da Soja acendeu um alerta no setor ambiental e reacendeu o debate sobre os rumos da governança socioambiental no agronegócio brasileiro. 

Em nota, o WWF-Brasil classificou o movimento como um “retrocesso grave e injustificável”, ao afirmar que a saída das empresas enfraquece um dos instrumentos mais eficazes de combate ao desmatamento na Amazônia e amplia riscos climáticos, econômicos e reputacionais para o país.

O anúncio foi feito pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que comunicou que suas associadas deixarão de cumprir o compromisso de não adquirir soja proveniente de áreas desmatadas no bioma amazônico. 

Para o WWF-Brasil, a decisão compromete diretamente a estabilidade ambiental da região e expõe o próprio setor produtivo a incertezas crescentes. “Ao enfraquecer a Moratória da Soja, as empresas colocam em risco a integridade das florestas das quais dependem a estabilidade climática e os regimes de chuva essenciais à produção agrícola”, afirmou a organização.

A entidade ressalta que a moratória não foi extinta por força de lei, mas esvaziada por decisão voluntária das empresas, que tinham respaldo legal para permanecer no acordo. “Trata-se de uma escolha consciente de se afastar de uma solução amplamente reconhecida no cenário internacional como referência na agenda climática”, destacou o WWF, ao apontar que o movimento sinaliza a priorização do acesso a incentivos fiscais financiados com recursos públicos em detrimento do enfrentamento do desmatamento.

O contexto da decisão envolve a Lei Estadual nº 12.709/2024, de Mato Grosso, atualmente questionada no Supremo Tribunal Federal por meio de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade. A norma condiciona a concessão de incentivos fiscais e patrimoniais e autoriza a restrição desses benefícios a empresas que aderem a compromissos privados ambientais, como a Moratória da Soja. Para o WWF-Brasil, a legislação “institucionaliza a insegurança jurídica, fragiliza a previsibilidade regulatória e penaliza iniciativas voluntárias de responsabilidade socioambiental”.

Acordo 

Criada há 18 anos, a Moratória da Soja consolidou-se como o principal acordo multissetorial para dissociar a expansão da sojicultura do desmatamento na Amazônia. Dados da própria Abiove indicam que, desde 2008, apenas 2,1% do desmatamento registrado nos municípios monitorados resultou em plantio de soja, enquanto mais de 13 mil quilômetros quadrados de floresta foram preservados graças ao acordo. Entre 2009 e 2022, o desmatamento nessas áreas caiu 69%, ao mesmo tempo em que a área plantada com soja no bioma cresceu 344%.

“O histórico da moratória demonstra de forma inequívoca que ela não limitou a produção agrícola, mas orientou sua expansão para áreas já abertas, reduzindo riscos ambientais e climáticos”, afirmou o WWF-Brasil. Entre 2007 e 2022, a área cultivada com soja na Amazônia aumentou em 1,64 milhão de hectares, mas apenas cerca de 250 mil hectares ocuparam áreas desmatadas após 2008.

Aumento do desmatamento 

O alerta da organização ocorre em um momento de pressão crescente sobre a floresta. Dados do sistema Prodes, divulgados em novembro de 2025, mostram que Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal a registrar aumento do desmatamento no período recente. Para o WWF-Brasil, o enfraquecimento de salvaguardas ambientais tende a intensificar a conversão de vegetação nativa justamente quando a Amazônia já se aproxima de limites críticos de resiliência.

Ao destacar a moratória como um modelo robusto de governança socioambiental — baseado em monitoramento independente, auditorias, rastreabilidade e participação multissetorial — a entidade conclui que o afastamento das empresas projeta uma mensagem negativa ao mercado internacional. 

“O Brasil sinaliza retrocesso institucional e ambiental em um contexto de exigências crescentes por compromissos verificáveis de desmatamento zero”, afirmou o WWF, ao defender que a conservação da Amazônia deve permanecer no centro da estratégia de competitividade e desenvolvimento de longo prazo do país.