Disputa com EUA lança dúvidas sobre fundo florestal na COP30

Iniciativa que busca valorizar áreas preservadas pode enfrentar resistência no Banco Mundial, enquanto especialistas apontam cenário internacional marcado por negacionismo climático e impasses diplomáticos

Floresta Amazônica / Foto: Greenpeace

O agravamento das tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos ameaça comprometer um dos principais objetivos do governo brasileiro para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30): a criação de um fundo global destinado à preservação de florestas tropicais.

Batizado de Tropical Forest Finance Facility (TFFF), o mecanismo foi apresentado pela primeira vez na COP28, em Dubai, e atualmente passa por fase de estruturação. A proposta é criar uma fonte estável de recursos para apoiar países detentores de grandes áreas de floresta, contribuindo para a conservação da biodiversidade e para o cumprimento das metas globais de clima.

Para tornar o fundo operacional, o Brasil negocia com o Banco Mundial, que deve assumir o papel de instituição financeira responsável pela gestão dos aportes e pela coordenação das iniciativas. A expectativa do governo era dar visibilidade ao TFFF como um dos principais legados da presidência brasileira da COP. Entretanto, os desentendimentos com Washington podem impor obstáculos ao engajamento internacional e à captação de recursos.

Recentemente, o assessor especial do Ministério do Meio Ambiente (MMA), André Aquino, alertou que a forte influência dos Estados Unidos no Banco Mundial pode representar um obstáculo à proposta brasileira. “A instituição financeira tem seu poder de voto definido pelo volume de recursos aportados, e os Estados Unidos detêm uma fatia significativa, superior a 30%”, explicou. “Na prática, um veto desse tipo nunca ocorreu. Mas há muitas situações que nunca tinham acontecido e que estão acontecendo atualmente”, observou.

O TFFF tem potencial de captar US$ 125 bilhões e financiar cerca de 1 bilhão de hectares de florestas tropicais no mundo, de acordo com o MMA. A expectativa do governo é que o fundo contribua para valorizar economicamente as áreas preservadas, aumentando também o custo de oportunidade da remoção da vegetação nativa.

O economista Bráulio Borges, diretor da LCA Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre, destacou que a conferência será realizada em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e pela volta do negacionismo climático em grandes economias. “Daqui a três meses, no Brasil, a expectativa é de alguns avanços, mesmo em meio a um clima bastante desafiador”, disse a jornalistas durante o evento A Socioeconomia do Clima, realizado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS). 

Borges destacou que a situação se torna ainda mais complexa diante do movimento observado pelo governo do presidente Donald Trump. “No final de julho, o Departamento de Energia norte-americano soltou um relatório claramente coordenado por Trump. O texto afirma que existe aquecimento global, mas que isso não seria problema, e até poderia aumentar a produtividade agrícola. É um relatório feito sob encomenda, sem consultar especialistas, simplesmente um panfleto”, criticou.

Para ele, esse contexto terá impacto direto nas negociações multilaterais. “O ambiente que a gente encontra na COP será, no mínimo, bastante desafiador. Mas começamos, como sociedade e como mundo, a agir para evitar os piores cenários.”

Novas alianças 

O TFFF possui alternativas e poderia buscar apoio de outros bancos multilaterais de desenvolvimento, embora nenhum ofereça o mesmo peso e alcance que o Banco Mundial proporcionaria. Para o diretor executivo da Climate Ventures e do Nature Investment Lab (NIL), Daniel Contrucci, a ausência de apoio dos Estados Unidos ao Acordo de Paris representa um entrave para a agenda global do clima, mas também pode abrir espaço para novas alianças comerciais e oportunidades ao Brasil.

“Óbvio que o melhor cenário seria se a gente tivesse um governo americano apoiando a permanência dos Estados Unidos dentro do Acordo de Paris”, disse. “A gente sabe que isso não vai acontecer e que o país não estará jogando em prol da economia global. Sendo um dos principais poluentes, a saída dos EUA acaba atrasando, de alguma forma, a agenda como um todo.”

Apesar disso, Contrucci ressaltou que a pressão internacional contra o negacionismo climático é cada vez maior. “O que está acontecendo hoje é tão gritante, tão diferente do que era no outro governo, que não tem mais como negar. Para ser negacionista, é preciso viver em uma bolha muito isolada. O que deve acabar acontecendo é os Estados Unidos ficarem de fora de um grande acordo global.”

O economista ponderou que esse cenário pode trazer prejuízos não apenas para outros países, mas principalmente para os próprios norte-americanos. “Entendo que isso vai prejudicar todo mundo, mas vai prejudicar muito mais os Estados Unidos. Se conseguirmos outros compradores e formas de financiamento, certamente vamos contornar essa ausência”, afirmou.

Contrucci lembrou, ainda, que a instabilidade já trouxe impactos diretos ao Brasil, atingindo inclusive o NIL. “O Laboratório de Investimentos em Natureza tinha a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) como uma das fundadoras e possível financiadora. Estávamos há um ano negociando um contrato multimilionário e perdemos isso do dia para a noite com a extinção praticamente da agência”, relatou.