Créditos de carbono sob risco no Cerrado

Uso de monoculturas exóticas em projetos de crédito de carbono no Cerrado levanta alerta sobre impactos ambientais e fragilidades regulatórias

Parte dos projetos prevê o plantio de eucalipto e pinus, espécies exóticas cercadas por controvérsia científica quanto aos seus impactos. Foto: Fernando Dias/Ascom-Sepadr.

O atual modelo de mercado de créditos de carbono pode ampliar riscos ambientais e sociais no Cerrado ao priorizar a lógica financeira e permitir a expansão de monoculturas exóticas sob o rótulo de restauração. 

A avaliação foi feita pelo pesquisador Bruno Bassi, do Observatório do Agronegócio no Brasil De Olho nos Ruralistas, em entrevista recente ao podcast Ambiente é o Meio, da Rádio USP.

Bassi analisou a atuação do Banco BTG Pactual no mercado de créditos de remoção de carbono e apontou potenciais impactos socioambientais de projetos vinculados a áreas no Cerrado do Mato Grosso do Sul.

Segundo ele, embora apresentados como iniciativas de recuperação ambiental, parte dos empreendimentos admite o plantio de eucalipto e pinus, espécies exóticas cuja adoção é alvo de controvérsia científica. “O modelo permite monocultura com potencial impacto hídrico, uso de insumos químicos e efeitos sobre a biodiversidade. Não há consenso de que isso represente a melhor solução ecológica para o Cerrado”, afirmou.

Ele citou contratos firmados pelo banco com empresas como Meta e Microsoft para aquisição de milhões de créditos de carbono. Em sua avaliação, a lógica de compensação, que permite às companhias manter níveis elevados de emissão enquanto compram créditos para declarar neutralidade, desloca o foco da redução estrutural de emissões.

O modelo de neutralidade pode funcionar mais como mecanismo contábil do que como instrumento efetivo de mitigação climática. “Os impactos territoriais e sociais permanecem na ponta, especialmente em regiões com comunidades tradicionais”, disse Bassi.

Fragilidades regulatórias

O pesquisador também apontou fragilidades regulatórias. Segundo ele, o mercado brasileiro de carbono foi estruturado sob forte influência de interesses corporativos, com baixa transparência contratual e pouca participação social. 

Para Bassi, a expansão desse mercado exige regulação mais rigorosa, transparência e participação da comunidade científica e das populações afetadas. “Sem isso, a restauração do Cerrado corre o risco de se tornar ativo financeiro sem garantir proteção efetiva do bioma.”

Nesse cenário, o debate sobre créditos de carbono passa a envolver não apenas metas climáticas, mas o próprio modelo de desenvolvimento aplicado ao bioma. Sem regulação rigorosa, transparência e participação social, o mercado pode consolidar uma lógica em que a rentabilidade financeira se sobrepõe à proteção ambiental e aos direitos das comunidades locais.