Crédito rural vira ferramenta contra desmatamento

Nova regra obriga bancos a checar irregularidades ambientais antes de liberar financiamento e atinge cerca de R$ 273 bilhões no país

Se houver desmatamento após 2019, o produtor só terá acesso ao crédito se comprovar autorização de órgãos ambientais. Foto: Orlando K. Júnior/Divulgação.

Uma mudança recente nas regras do crédito rural está redesenhando a relação entre financiamento agrícola e preservação ambiental no Brasil, colocando os bancos no centro desse processo. A partir de agora, instituições financeiras passam a ser obrigadas a verificar, antes de liberar recursos, se houve desmatamento nas propriedades rurais que solicitam crédito.

A exigência foi incorporada às normas do sistema e determina que os bancos consultem bases oficiais com dados de monitoramento por satélite. Caso seja identificado desmatamento ocorrido após 2019, o produtor só poderá acessar financiamento se comprovar que a supressão de vegetação foi autorizada pelos órgãos competentes.

Na prática, a medida transforma o sistema financeiro em uma extensão do controle ambiental do Estado, ao condicionar o acesso ao crédito à regularidade ambiental das propriedades. O impacto é significativo. A regra alcança cerca de US$ 53 bilhões, aproximadamente R$ 273 bilhões, em crédito rural subsidiado, o equivalente a um terço do total ofertado no país.

Além das linhas com recursos públicos, a mudança também afeta instrumentos privados amplamente utilizados no agronegócio, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), ampliando o alcance da política. 

Outro ponto central é a vedação do uso de recursos subsidiados para financiar desmatamento, mesmo quando a atividade é legal. Nesses casos, o produtor poderá realizar a supressão, mas sem acesso ao crédito com juros favorecidos.

Reação do setor 

A medida provocou reação imediata de entidades do agronegócio, que criticam a transferência de responsabilidade ambiental para as instituições financeiras. Representantes do setor apontam riscos de insegurança jurídica, especialmente diante de possíveis falhas nos sistemas de monitoramento por satélite e de disputas fundiárias ainda não resolvidas em diversas regiões do país.

Por outro lado, parte do sistema financeiro vê a mudança como uma forma de mitigar riscos. Ao restringir o financiamento de atividades com potencial de gerar passivos ambientais, os bancos também se protegem de prejuízos reputacionais e jurídicos.

A nova regra se insere em uma estratégia mais ampla de combate ao desmatamento, que busca integrar critérios ambientais às políticas de crédito. Dados indicam que cerca de 17% do crédito rural concedido entre 2020 e 2024 foi destinado a propriedades com registro de desmatamento recente, cenário que reforçou a pressão por maior controle.

Ao atrelar o acesso a recursos à conformidade ambiental, o governo utiliza o crédito rural como instrumento de política pública e amplia a capacidade de indução de práticas sustentáveis no campo. Trata-se de uma mudança estrutural que reposiciona o financiamento agrícola no país e o aproxima de exigências socioambientais cada vez mais presentes no mercado global.