Chapada dos Veadeiros na mira da mineração

Sob o discurso da transição energética, governo de Goiás revisa regras ambientais e pode abrir espaço para exploração mineral em área sensível do Cerrado

Ao menos 496 processos de pesquisa e exploração mineral já foram registrados junto à ANM na região, 131 envolvem minerais estratégicos. Foto: Agência Brasil/Marcelo Camargo.

Sob o discurso da transição energética e da corrida global por minerais críticos, o governo de Goiás abriu caminho para uma mudança que pode transformar o entorno da Chapada dos Veadeiros em nova fronteira da mineração no Brasil. 

A revisão do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto — cinturão ecológico que protege uma das áreas mais preservadas do Cerrado e reconhecida pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial — ameaça flexibilizar regras que hoje impedem atividades de alto impacto ambiental na região. 

Enquanto empresas mineradoras avançam sobre jazidas de manganês, terras raras e níquel, ambientalistas alertam que o projeto coloca em risco nascentes estratégicas, comunidades tradicionais e a própria integridade da Chapada dos Veadeiros.

A informação, revelada pela Folha de S.Paulo, mostra que já existem ao menos 496 processos ativos de pesquisa e exploração mineral registrados na região junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). Desse total, 131 envolvem minerais considerados estratégicos.

A APA de Pouso Alto funciona como uma espécie de cinturão de proteção da Chapada dos Veadeiros. Atualmente, o plano de manejo da unidade de conservação impede atividades classificadas como de alto impacto ambiental, entre elas a mineração. A proposta em discussão, no entanto, busca substituir a lógica de proibição por um modelo de “compatibilização” entre exploração mineral e conservação ambiental.

Para avançar na revisão, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás criou um grupo de trabalho destinado a discutir a viabilidade jurídica e ambiental da mineração dentro da APA. Na prática, a mudança pode destravar interesses minerários que hoje encontram barreiras regulatórias.

Os números revelam a dimensão da pressão econômica sobre a região. Os quase 500 processos minerários abrangem cerca de 527 mil hectares ao redor do parque nacional. Entre os projetos voltados a minerais críticos, 98 têm foco no manganês, 31 miram terras raras e cassiterita, enquanto outros dois envolvem, entre diferentes substâncias, o níquel.

Demanda por minerais críticos 

O avanço da agenda mineral em Goiás ocorre em meio ao crescimento global da demanda por minerais críticos, impulsionada pela transição energética e pela indústria de tecnologias limpas. Em 2025, o governo estadual aprovou a criação da Autoridade Estadual de Minerais Críticos e de um fundo voltado ao setor, consolidando uma política de incentivo à exploração mineral estratégica.

A movimentação também teve desdobramentos políticos nacionais. Neste ano, Ronaldo Caiado — então governador e pré-candidato à Presidência da República — entrou em rota de colisão com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao assinar um memorando relacionado à exploração de minerais críticos com representantes do governo dos Estados Unidos, em agenda que contou com a presença de Marco Rubio.

Ameaça iminente

Organizações ambientalistas reagiram com críticas à proposta. Em nota, o Greenpeace alertou que a flexibilização das regras ambientais ameaça uma das áreas mais sensíveis do Cerrado brasileiro. A entidade destaca que a APA abriga nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas e comunidades tradicionais, incluindo o Quilombo Kalunga, considerado o maior território quilombola do país.

“Esse é só mais um capítulo das manobras que acontecem sob o pretexto de ‘apoiar a transição energética’, mas que colocam em risco áreas ambientais que ainda estão protegidas. Mais uma vez, são interesses empresariais sendo colocados acima da proteção socioambiental por políticos e empresas”, critica a entidade. 

Para ambientalistas, o discurso da demanda por minerais estratégicos vem sendo utilizado para justificar a expansão de atividades extrativistas em áreas protegidas, sem garantias suficientes de preservação socioambiental. 

O receio é que a liberação da mineração em uma região já cercada por centenas de requerimentos minerários aprofunde os impactos sobre a biodiversidade, comprometa recursos hídricos estratégicos e ameace os modos de vida tradicionais da região.