Mais de uma centena de organizações da sociedade civil de diferentes regiões do mundo cobraram da presidência brasileira da COP30 que o chamado “mapa do caminho” para o fim dos combustíveis fósseis deixe de ser apenas um exercício técnico e se transforme em um processo político real, inclusivo e ancorado na ciência. A manifestação ocorre em meio à intensificação dos impactos da crise climática e à crescente instabilidade geopolítica associada à dependência global de petróleo, carvão e gás.
Em carta aberta dirigida ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, as 114 entidades alertam que, sem liderança política consistente e participação efetiva da sociedade civil, o roteiro corre o risco de se tornar “mais um documento que junta poeira”.
O texto reúne entidades de justiça climática, povos indígenas, organizações de direitos humanos, grupos religiosos e comunitários, refletindo a amplitude das preocupações em torno da transição energética.
Para os signatários, a credibilidade da ação climática global está cada vez mais ligada à capacidade dos governos de promover uma redução planejada e justa da produção e do consumo de combustíveis fósseis.
“Se algo ficou absolutamente claro no início de 2026, é que os países precisam se libertar dos mercados voláteis de petróleo, que os expõem a riscos geopolíticos e a choques recorrentes de preços”, afirma Andreas Sieber, chefe de Estratégia Política da 350.org e um dos coordenadores da iniciativa. Segundo ele, “tem de haver um declínio manejado dos combustíveis fósseis e a entrega de energia acessível e justa”.
Roteiro
A carta destaca que o roteiro proposto pela presidência da COP30 só terá impacto concreto se for transparente, co-criado e genuinamente participativo, com envolvimento significativo da sociedade civil, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Também defende que o Brasil exerça co-liderança com países parceiros, especialmente da América Latina e do Pacífico, regiões altamente vulneráveis aos efeitos da mudança do clima.
O documento chama atenção para o caráter de longo prazo do processo. “A presidência brasileira termina em poucos meses, e precisamos de outros países ou grupos de países dispostos a levar o trabalho adiante, já que este será necessariamente um processo de vários anos”, observa Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. Para ele, “a apropriação do processo do roteiro será crucial”, exigindo do Brasil um equilíbrio delicado entre ambição e inclusão.
Além de apontar riscos econômicos e políticos associados à continuidade da dependência de combustíveis fósseis, a carta elenca condições consideradas essenciais para a credibilidade do roteiro.
Entre elas estão salvaguardas robustas contra a influência de interesses da indústria fóssil, o cumprimento das obrigações climáticas pelos países desenvolvidos — especialmente em financiamento —, a proteção de trabalhadores e comunidades afetadas e a garantia de liderança ministerial com mecanismos de responsabilização democrática e respeito aos direitos humanos.
Para representantes de regiões na linha de frente da crise climática, a urgência é inequívoca. “Os povos do Pacífico e da Amazônia celebraram o anúncio de um roteiro para nos levar a um futuro além dos combustíveis fósseis”, afirma Fenton Lutunatabua, gerente de programas da 350.org para o Pacífico e o Caribe. Segundo ele, “a meta de 1,5°C está perigosamente em risco, e não podemos nos dar ao luxo de mais um documento sem passos concretos para a transição”.
A COP30, realizada em novembro, em Belém, marcou o início da presidência brasileira nos debates climáticos globais, que se estende até a próxima conferência, prevista para ocorrer na Turquia, em novembro de 2026.
A pressão da sociedade civil ocorre em um momento decisivo para a presidência brasileira da COP30, que busca se consolidar como liderança climática global. Para as organizações signatárias, transformar o mapa do caminho em ação concreta será um teste central da capacidade do Brasil de articular ambição climática, justiça social e cooperação internacional em um cenário global cada vez mais desafiador.