Com o prazo para a mudança de partido encerrado ontem, uma nova composição do xadrez eleitoral começa a ser desenhada. No balanço preliminar, o PL, de Valdemar Costa Neto, que já tinha a maior bancada na Câmara, foi o que mais ganhou parlamentares, de 87 para 97, enquanto o União Brasil foi o que mais perdeu, de 59 para 51, em grande parte devido aos desdobramentos do escândalo do Banco Master. Contudo, o que mais tem chamado a atenção é o PSD, de Gilberto Kassab, que está se distanciando do centro, na avaliação do cientista político Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores Associados.
“O PSD perdeu menos deputados do que ganhou, que teve um saldo positivo no cômputo geral. Mas houve uma mudança imensa no perfil dos parlamentares que entraram agora, mais alinhados à direita”, disse ele, em relação à legenda, que passou a ter 49 deputados na Câmara. “O partido mudou de cara, e eu acho que muito em virtude dessa guinada do PSD para a direita com a ida do do Kassab na direção da candidatura do Ronaldo Caiado”, acrescentou.
Aliás, esse direcionamento do PSD à direita faz com que Kassab deixe de ficar com os pés nas duas canoas, como vinha se mantendo, distanciando-se do atual governo.
Plano C” de Kassab
A escolha de Caiado como pré-candidato à Presidência da República pelo PSD, contudo, foi vista como o Plano C de Kassab, na avaliação do cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria. Ele lembra que o projeto inicial do cacique era lançar-se vice na chapa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que não decolou, pois o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) escolheu o filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), para receber o seu capital político. Depois, a segunda aposta de Kassab, o governador do Paraná, Ratinho Júnior, desistiu de concorrer ao Planalto. “Kassab demorou para escolher candidato e ficou com a terceira opção, que não parece ser muito alvissareira”, afirmou.
Recados I
Com o fim da janela partidária, alguns partidos perderam mais do que ganharam, como foi o caso do União Brasil, que teve 30 desfiliações. O movimento de afastamento do partido tem duas causas: a federação com o PP, do senador Ciro Nogueira (PI), e o possível envolvimento de Antonio Rueda, presidente da legenda, com Daniel Vorcaro.
Recados II
A filiação de Kátia Abreu ao PT, após deixar o PP, também é vista como um recado ao partido de Ciro Nogueira, presidente da sigla. É que o nome de Ciro aparece nas mensagens trocadas entre Vorcaro e a ex-noiva Martha Graeff. A ex-ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff e ex-senadora estava no PP desde 2020 e não conseguiu se reeleger para deputada em 2022. Agora, une-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para, possivelmente, disputar o governo do Tocantins.
Rescaldo da CPMI
A CPMI do INSS pode ter sido encerrada, mas as opiniões sobre as investigações ficaram divididas, porque a comissão esbarrou no escândalo do Master. Há uma teoria de que o colegiado “avançou demais” sobre as relações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de senadores com o banco de Vorcaro. Com isso, a lista nominal dos 19 parlamentares que votaram contra o relatório final — indiciando mais de 200 pessoas, inclusive, o filho do presidente Lula, o Lulinha — é ouro puro para a oposição na campanha eleitoral, porque 10 deles são do PT. Logo, Lula ainda vai ter de explicar por que o partido dele votou contra os aposentados, principais lesados pelas fraudes dos sindicatos no INSS.
Tapando o sol com a peneira
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) limitando os penduricalhos do funcionalismo público em 35% do teto constitucional, de R$ 46,3 mil mensais, mas permitindo um adicional de tempo de serviço de até 35%, não ajudou a reduzir as desigualdades e, muito menos, a moralizar os Poderes da República, especialmente o Judiciário, que é o maior beneficiário dessas verbas indenizatórias, de acordo com a Republica.org, voltada para a melhoria da gestão no serviço público brasileiro. “O resultado final reforça desigualdades, legitima distorções e fragiliza, de forma preocupante, o princípio constitucional do teto remuneratório. Temos a percepção de que se trata de uma decisão que reorganiza e institucionaliza mecanismos de exceção”, lamentou a entidade em nota.
Turbilhão do BRB
Enquanto o Banco de Brasília (BRB) segue no turbilhão do escândalo das fraudes do Banco Master e tenta buscar recursos para se capitalizar, crescem os temores sobre uma possível líquidação da instituição controlada pelo Governo do Distrito Federal (GDF) após o atraso na divulgação do balanço de 2025, que venceu em 31 de março. As estimativas do mercado indicam que o rombo do BRB criado pelas fraudes do Master deve ser superior aos R$ 6,6 bilhões inicialmente indicados pela instituição ao Banco Central. Com isso, fica em dúvida também o futuro de fundos de aposentadoria e de rendimentos de funcionários públicos não apenas do DF, mas de estados que são tradicionais redutos petistas, como Maranhão, Bahia, Paraíba e Alagoas.
“Terra de oportunidades”
Com passagens por governos de esquerda e de direita, o empresário e político Guilherme Afif Domingos, um dos fundadores do PL, sempre teve uma única bandeira, a do empreendedorismo, para justificar esse bom trânsito junto ao Poder Executivo. Para ele, o Brasil continua sendo um país cheio de oportunidades, como na época de seus avós libaneses, quando chegaram ao país no fim do século retrasado. Por conta disso, ele acaba de lançar sua biografia com as memórias da evolução econômica do país no livro Juntos chegaremos lá, da editora Matrix. “Toda época tem suas oportunidades”, afirmou o ex-ministro do governo Dilma Rousseff e ex-assessor especial do ex-ministro da Economia Paulo Guedes. À frente da Secretaria de Planejamento Estratégico do governador Tarcísio de Freitas, Afif vê com ressalvas uma das principais bandeiras do atual governo, o fim da escala 6×1. “Vai ter efeito contrário do esperado”, alertou.
Coluna Brasília-DF do Correio Braziliense, com colaboração de Eduarda Esposito