Fitch rebaixa notas do Digimais e coloca ratings em “observação negativa”

Além de rebaixar as notas do Banco Digimais, Fitch Rating colocou todos os ratings da instituição do bispo Edir Macedo em "observação negativa", e apontou "aumento das incertezas recentes ", como um dos motivos

A Fitch Ratings divulgou nota, nesta quinta-feira (26/3), rebaixando os ratings do Banco Digimais, instituição do pastor Edir Macedo, da Igreja Universal. De acordo com a Fitch, as notas de crédito de longo prazo do Digimais passaram de BBB para BB+ e o ranting de curto prazo da instituição também foi rebaixado de F3(bra) para B(bra). Além disso, a agência de classificação de risco norte-americana informou que colocou todos os rating do banco em “observação negativa”.

“Os ratings do Digimais refletem recentes incertezas sobre a execução estratégica de seu modelo de negócios e a volatilidade de seu perfil financeiro. O banco está reestruturando sua governança corporativa e seu modelo de negócios. Para tanto, alterou o alto comando, incluindo a troca do CEO, e destituiu o Conselho de Administração, sinalizando uma mudança na direção estratégica”, destacou a nota da Fitch.

Na justificativa do rebaixamento, a agência ressaltou que o banco reformulou seu modelo operacional, adotando uma postura mais conservadora, com foco prioritário em crédito consignado, principalmente no estado de São Paulo, reduzindo suas metas de originação mensal. “Essas mudanças, embora possam fortalecer o perfil de risco no longo prazo, criam um período de transição que traz incertezas sobre a execução da estratégia, a adaptação da estrutura organizacional e a capacidade de manter a competitividade no segmento de consignado”, acrescentou.

Ao justificar os rebaixamentos, a Fitch destacou que as incertezas sobre em relação ao Digimais são preocupantes, “em meio à reformulação de seu modelo de negócios, à piora dos resultados em 2025 e à existência de disputa judicial envolvendo um fundo de investimentos em direitos creditórios (FIDC)”. Além disso, a agência ressaltou que as significativas alterações na governança corporativa do banco, incluindo a recente substituição do CEO e a destituição do Conselho de Administração, “criam um período de transição que requer monitoramento próximo”.

“A Fitch entende que a combinação desses fatores reduz a previsibilidade da execução da estratégia e da capacidade de o banco estabilizar seu desempenho financeiro”, destacou a nota.

Nos últimos dias, investidores andaram desconfiados com o Digimais, porque ele está sendo considerado como a próxima instituição a ser liquidada pelo Banco Central. Um dos motivos, segundo fontes do mercado, é o fato de que o banco vem oferecendo taxas acima da média do mercado para seus papeis, e, além disso, tinha operações com instituições já liquidadas pelo Banco Central.

E, para piorar, o Digimais ainda não divulgou os balanços do segundo semestre de 2025, o que pode justificar algum rombo financeiro na instituição. O último balanço no site foi divulgado em junho de 2025.

Liquidação da Reag Invesimentos

Na avaliação da Fitch, o resultado do banco foi fortemente impactado, especialmente no terceiro trimestre de 2025, quando a instituição encerrou fundos de investimento geridos pelo Grupo Reag, que foi liquidado pelo Banco Central em janeiro deste ano e tem uma das subsidiárias, a Reag Investimentos, investigada pela Polícia Federal, na operação Compliance Zero, que identificou fraudes nas operações financeiras do Banco Master, liquidado pelo BC em novembro de 2025.

Segundo a Fitch, o ajuste dos ativos desses fundos impactou o resultado e reduziu o índice CET1 do Digimais para 6,35% em setembro de 2025, abaixo do mínimo regulatório. “A situação foi posteriormente regularizada por meio de aumento de capital de R$ 250 milhões, aprovado pelo Banco Central em março de 2026. O banco deve fechar 2025 com um resultado operacional menor que os de 2023, 2024 e do primeiro semestre de 2025, mostrando volatilidade na rentabilidade”, destacou a nota.

“Apesar da recomposição dos indicadores prudenciais, a Fitch considera que o episódio evidencia maior sensibilidade do capital a eventos não recorrentes e, portanto, vai monitorar de perto a execução do plano e a recuperação da geração interna de capital do Digimais”, acrescentou o comunicado.

A Fitch ainda citou uma disputa judicial com do banco com cotista subordinado de um dos fundos FIDC, algo que considerou negativo.” “Embora até o momento não haja impacto direto sobre liquidez ou captação, a disputa permanece incerta e pode ter implicações no perfil de crédito, a depender da materialidade de seu desfecho econômico e reputacional”, complementou.

Apesar dos eventos recentes, a Fitch ainda destacou que a estrutura de captação do Digimais se mantém adequada ao porte em termos de custo, prazos e diversificação, sendo feita via parceiros de distribuição e instituições financeiras. “A Fitch observa, contudo, a relevante concentração de recursos em um depositante, ainda que este apresente histórico de recorrente relacionamento com o banco”, acrescentou a nota.

Segundo a agência, a Observação Negativa “pode ser removida caso o banco demonstre sucesso na execução da nova estratégia de negócios, com estabilização da estrutura de governança e melhora consistente dos indicadores de rentabilidade por trimestres consecutivos”. Procurado, o Digimais não comentou o assunto até o momento.