As representações do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MP TCU) sobre o escândalo do Caso Master enviadas pela Corte para a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado Federal, e que devem começar a ser analisadas pelo colegiado a partir desta semana, apontam omissão do Banco Central da fiscalização das operações do Banco Master, liquidado extrajudicialmente pela autoridade monetária em 18 de novembro de 2025.
Em das representações documentadas, protocolada em junho de 2025 pelo subprocurador-geral do MP de Contas Lucas Furtado, há uma indicação de “eventual omissão do Banco Central, ao não acompanhar e não divulgar a avaliação de risco das operações promovidas pelo Master, com vistas a proteger eventuais investidores, a exemplo da Rioprevidência”. O fundo de previdência dos servidores do Estado do Rio de Janeiro chegou a investir cerca de R$ 1,1 bilhão em letras financeiras do Master entre novembro de 2023 até julho de 2025, de acordo com os documentos do TCU enviados ao Senado.
E, um documento posterior, protocolado no mesmo dia da liquidação do Master, Furtado ainda fez um alerta de que “essa situação não apenas compromete a estabilidade do sistema financeiro, mas também abala a confiança do público no funcionamento das instituições financeiras e na capacidade do Estado de garantir a segurança do sistema”.
Em outra representação datada em julho de 2025, o procurador de Contas Júlio Marcelo de Oliveira alertou sobre “eventual omissão do BC” no caso da venda do Master para o Banco de Brasília (BRB), e lembrou que a utilização de bancos públicos para socorrer instituições privadas em apuros não é uma novidade, e citou como exemplo o caso da Caixa Econômica Federal, que foi usada para salvar o Banco Panamericano. “Daí resultaram vultosos prejuízos para a sociedade. Nas hipóteses em que restar configurado o uso de instituições financeiras majoritariamente públicas para socorrer bancos ou outras entidades privadas, ou produzir vantagens indevidas para particulares, deve-se esperar que o Banco Central rejeite a operação”, escreveu. “A utilização de patrimônio da coletividade não pode servir para a proteção de patrimônio privado. Isso configura distorção que deve ser rejeitada”, acrescentou o subprocurador.
Apesar das críticas dos procuradores à demora do BC para agir no caso das fraudes do Master, o posicionamento do ministro Jhonatan de Jesus tentando enquadrar o Banco Central, acusando a autoridade monetária de ter agido com “pressa” ao liquidar o Banco Master, não foi muito compreendido dentro do próprio TCU até hoje. Além disso, a defesa para a aprovação do negócio feita pelo então governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB) – que acaba de licenciar-se do cargo para disputar as eleições – era feita com entusiasmo no começo, mas, depois, ele mudou o tom, também chama a atenção de técnicos que acompanham o caso.
“Se comprar o Master fosse bom negócio, algum banco privado já teria comprado. Não seria o BRB que iria comprar. Banco público só aparece nessas horas para passar o mico para os cidadãos”, disse uma fonte próxima às investigações. Segundo ela, o consenso entre técnicos do TCU foi de que o BC foi omisso na fiscalização e “ficou assistindo o Master descumprir as regras de depósito compulsório por mais de um ano, enviando vários ofícios, com advertências. “Isso não é atuação de um BC diligente. Tudo o que o BC não foi é precipitado. Pelo contrário, chegou super atrasado”, destacou um especialista ligado ao Judiciário que pediu anonimato.
Procurado, o Banco Central não comentou as críticas sobre a omissão na fiscalização do Master. O ministro Jhonatan de Jesus, por sua vez, informou, por meio de nota, que o despacho registrou, “em caráter estritamente preliminar, que havia elementos a serem esclarecidos, tanto quanto ao acompanhamento anterior da situação do banco quanto à forma e ao momento em que se deu a decisão de liquidação, especialmente diante de alternativas de mercado então em discussão”. “Isso não significou juízo conclusivo nem acusação de irregularidade, mas apenas a identificação de pontos que, pela relevância e pelo impacto do caso, justificavam aprofundamento instrutório com base em documentação técnica completa”, acrescentou a nota.
Na semana passada, o ministro do TCU Jhonatan de Jesus suspendeu o processo de análise da atuação do Banco Central no processo de decretação de liquidação extrajudicial do Banco Master e aguarda a conclusão de outras investigações em curso relacionadas ao caso para retomar o tema.
Balanço atrasado
Enquanto isso, o prazo para o BRB divulgar os dados dos balanços atrasados do segundo semestre de 2025 termina amanhã (31/3) e o clima de tensão é grande diante da expectativa de um prejuízo volumoso nas contas do banco controlado pelo GDF provocado, em grande parte por conta das operações fraudulentas com o Master. O banco público corre o risco de ser liquidado pelo BC se a operação de capitalização que vem sendo orquestrada pelo GDF não for concretizada, na avaliação de especialistas.
A nova gestão da instituição financeira do DF, tenta uma saída junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para um empréstimo de R$ 4 bilhões para cobrir parte do rombo e recuperar a liquidez. Contudo, essa medida repete um movimento inesperado para a natureza do FGC, que foi criado para o socorro dos clientes de bancos liquidados e não para financiamento de instituições financeiras com problemas, como foi o caso, no ano passado, do Master, que recebeu cerca de R$ 4,5 bilhões do FGC, com aval do Banco Central.
O economista e ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas Gomes, destacou que o FGC não foi criado para fazer empréstimos aos bancos em apuros, como é o caso do BRB, cujo maior problema no momento é a falta de liquidez. “Não compete ao FGC emprestar dinheiro a qualquer banco”, afirmou Gomes, em tom enfático, destacando o caso do banco Cruzeiro do Sul, em que o BC decretou o Regime de Administração Especial Temporária (Raet), em junho de 2012, e nomeou o FGC como administrador, e, em setembro do mesmo ano, e o BC acabou liquidando extrajudicialmente a instituição. “Deu tudo errado”, disse.
Procurados, o FGC e o Banco Central não comentaram essa desvirtuação da finalidade do Fundo Garantidor. O BRB também não informou se divulgará amanhã o balanço.
Compliance Zero
Conforme as investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, as fraudes do Master na venda de carteiras podres para o BRB somaram R$ 12,2 bilhões. Após o afastamento do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, a nova gestão, liderada pelo sucessor de Costa, Nelson Souza, tenta ganhar mais tempo junto à autoridade monetária, que pediu vários esclarecimentos ao BRB sobre a tentativa de compra do Master – operação anunciada em março de 2025 e que foi vetada pelo BC seis meses depois.
O BRB ainda não divulgou os balanços trimestrais do segundo semestre de 2025, mas, conforme dados enviados pela instituição ao BC referentes ao terceiro trimestre de 2025, o passivo exigível cresceu 9%, passando de R$ 70,7 bilhões para R$ 77,1 bilhões em comparação com trimestre anterior – aumento de R$ 6,4 bilhões – valor parecido com o declarado pelo BRB ao BC sobre os prejuízos com as operações com o Master, de R$ 6,5 bilhões. Contudo, algumas estimativas do mercado indicam que o rombo poderá ser maior, em torno de R$ 8 bilhões.
De acordo com os dados do BRB enviados ao BC, referentes ao terceiro trimestre de 2025, o lucro líquido do banco encolheu 65,3% em relação aos três meses anteriores, passando de R$ 530,4 milhões para R$ 184 milhões e o patrimônio líquido aumentou de R$ 4,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões no mesmo período.