A segunda reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central tem início, nesta terça-feira (17/3) em clima tenso no mercado financeiro por conta da nova guerra no Oriente Médio, que tem mexido com as bolsas internacionais e os preços do petróleo, deixando os integrantes do colegiado liderado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, em uma situação desconfortável após a sinalização do início do ciclo de cortes na taxa básica da economia (Selic) após cinco reuniões com os juros mantidos em 15% ao ano — maior patamar em quase 20 anos.
O cenário mais complicado lá fora, com o barril do petróleo tipo Brent negociado acima de US$ 100 desde a última sexta-feira (13), consolida as apostas de um corte moderado na taxa básica, de 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, se ocorrer.
Antes desse novo conflito e logo após a primeira reunião do Copom, em janeiro, as apostas do mercado estavam se concentrando em um corte maior na taxa básica, de 0,50 ponto percentual. Não à toa, o dólar voltou a cair, hoje, voltando para o patamar de R$ 5,20, em meio dessa expectativa de os juros no Brasil seguirem mais elevados por um período mais prolongado, e a Bolsa de Valores de São Paulo (B3), apresentava leve alta, rodando em torno dos 180 mil pontos.
Na avaliação de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o corte da taxa Selic , que está em 15% ao ano desde junho de 2025, será de 0,25 ponto percentual, mas ele não descarta a manutenção da taxa no atual patamar, de 15% ao ano.
“Acho muito provável a manutenção dos juros também. Aliás, minha preferência seria parar para esperar (para o BC começar a reduzir os juros). Até porque 0,25 ponto percentual de corte e nada é a mesma coisa. Mas é grande a chance de não fazerem nada”, disse Vale, em entrevista ao Blog. Ele manteve em 13% a previsão para a Selic no fim do ano.
De acordo com analistas, as perspectivas de que a guerra no Oriente Médio deverá durar mais do que o anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ajudaram a aumentar as incertezas no cenário internacional. E, no mercado doméstico, ainda há dúvidas sobre os impactos dos desdobramentos do escândalo do Banco Master, devido à expectativa de delação premiada do dono da instituição financeira liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025.
O economista e consultor André Perfeito, da Garantia Capital, também aposta que o Copom deverá optar pela manutenção da taxa Selic. “O motivo é simples. Não seria sábio para o Banco Central cortar os juros antes de o Vorcaro fazer a sua delação”, avaliou. Segundo ele, a delação premiada de Vorcaro, que tem conexões nos Três Poderes da República, tanto da ala governista quanto da oposição, pode fazer um novo estrago no câmbio e, mesmo se houver queda dos juros, o dólar pode disparar e chegar a R$ 5,70. “Essa delação pode erodir os ganhos que, eventualmente, temos na balança comercial de petróleo e derivados. Se o BC cortar (os juros) eu entendo, se não cortar, entendo também”, escreveu em nota.
As apostas da equipe de economistas do Itaú Unibanco, liderada pelo economista-chefe Mario Mesquita, também são de corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic nesta semana, devido ao aumento das incertezas no cenário de riscos atuais, especialmente devido à alta dos preços do petróleo. Antes, a previsão era de um corte maior, de 50 pontos-base.
“Como de costume, a condução da política monetária diante desse tipo de choque dependerá da avaliação quanto à sua persistência e à propagação por meio de efeitos de segunda ordem (do conflito no Oriente Médio). Até o momento, esses canais secundários permanecem relativamente contidos. A taxa de câmbio segue em patamar bem comportado, refletindo, sobretudo, o elevado diferencial de juros e a melhora dos termos de troca”, destacou Mesquita, em relatório enviado aos clientes. O analista destacou que a inflação corrente, ainda que com um comportamento qualitativo pior do que o esperado nas últimas divulgações, segue em trajetória relativamente benigna.
De acordo com levantamento de Jason Vieira, economista-chefe da Lev Intelligence, o cenário de incertezas inflacionárias locais contínua, dada a questão fiscal e o mercado de trabalho apertado que criam tensão, com o forte adicional do conflito entre o Irã os Estados Unidos, “elevando o cenário de incertezas e complicando o cenário para as decisões de política monetária, com a inflação reiterando um qualitativo ruim apesar de alguns alívios pontuais em itens importantes”. Pela projeção dele, as chances de um corte de 0,25 ponto percentual somam 40% enquanto a de manutenção, 25%. Já a de corte de 50 ponto percentual, está com 35% de possibilidade.
Aos 14,75% ao ano, o Brasil seguirá na segunda no ranking mundial de juros reais (descontada a inflação), abaixo de Turquia e acima de Rússia e Argentina, segundo os dados de levantamento da MoneYou com a Lev Intelligence.
Vale lembrar que a manutenção dos juros é a aposta para a decisão do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), na decisão de amanhã, em mais uma Superquarta do mercado financeiro. Segundo analistas, o Fed não deve encontrar espaço, neste ano, para reduzir os juros neste ano devido ao conflito no Oriente Médio, apesar das pressões de Trump para novos cortes nos juros.
O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria, alertou para os riscos da guerra no Irã, deflagrada pelos Estados Unidos e por Israel, que tendem a afetar as estratégias e projeções atuais. “À medida que essa guerra se prolongar e se os Estados Unidos se meterem em um atoleiro, o petróleo ficará mais caro por mais tempo. E, com isso, as estratégias de todo mundo precisarão ser revistas, inclusive, a da política monetária do Banco Central. Por enquanto, o Copom deve cortar os juros, como sinalizou na reunião anterior, e esperar o desenrolar dessa guerra”, afirmou.
Crise no radar
Em evento em São Paulo organizado pelo jornal O Estado de São Paulo, o economista Nouriel Roubini, que previu a crise financeira global de 2008, também reconheceu que essa nova guerra no Oriente Médio preocupa, especialmente porque remete aos mesmos riscos da crise do petróleo na década de 1970. “Desde o início dessa guerra com o Irã, há preocupações de que vamos voltar aos anos 1970, com outro choque do petróleo, grande e severo, desorganizando a economia global e causando inflação e recessão”, afirmou.
Segundo Roubini, em economias exportadoras de petróleo, como o Brasil, a escalada nos preços do barril do petróleo é positiva para os produtores, mas é negativa para os consumidores de energia, de forma geral, como as famílias e as empresas. “Foi o que aconteceu no fim dos anos 1970, quando o segundo choque do petróleo acabou levando a um colapso dos preços do petróleo e, depois, à crise da dívida latino-americana”, alertou. (Com informações da Agência Estado)