Clima nos mercados deve ficar mais tenso após ataques dos EUA ao Irã

Novo conflito no Oriente Médio deve impactar preços do petróleo, devendo ter reflexos no câmbio e nas bolsas internacionais, a partir desta semana. Brasil, contudo, pode ser mais beneficiado na balança comercial

Pessoas em luto participam de um comício em memória do líder supremo do Irã, organizado por apoiadores dos houthis do Iêmen, um dia após o assassinato do líder do país durante ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra Teerã, na capital Sanaa, controlada pelos houthis, em 1º de março de 2026.. (Photo by Mohammed HUWAIS / AFP)

Os ataques combinados por Estados Unidos e Israel ao Irã, neste fim de semana, deixando mais de 200 mortos em cidades iranianas, devem deixar os mercados, nesta semana, mais tensos e também surtir efeitos nos preços do barril de petróleo, gerando pressões inflacionárias nos países do globo. Além disso, as incertezas sobre os desdobramentos dessa nova guerra deflagrada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tendem a gerar bastante volatilidade nos mercados internacionais, mas o Brasil pode ser uma das economias beneficiadas. 

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, alerta sobre a volatilidade nos mercados a curto prazo, mas acredita em uma acomodação de preços a médio e longo prazos. “O mercado vai adotar o modo pânico. Acredito que a tendência é o petróleo subir bastante, assim como ouro, prata, dólar e a curva de juros futuros”, afirma ele, citando o fluxo de procura por ativos considerados mais seguros pelos investidores e o aumento da cautela nos bancos centrais na condução da política monetária.

O economista Simão Silber, professor da Universidade de São Paulo (USP), também considera que haverá aumento de preços do petróleo, mas ele acredita que o impacto deverá ser mais moderado. “Claro que vai afetar o preço e o gerenciamento de petróleo no mundo, mas o efeito deverá ser menor pelo crescimento da produção da Rússia e  o controle dos EUA sobre a produção da Venezuela”, explica.

O consultor André Perfeito, economista-chefe da Garantia Capital, avalia que ainda não é certeza de que o mercado acionará o modo pânico nesta segunda-feira, uma vez que o petróleo já subiu quase 20% desde o começo do ano. Segundo ele, a temperatura da tensão nos mercados será medida em relação ao que acontecer no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, responsável pelo escoamento de quase um terço do petróleo global.

“Não sei se haverá algum pânico. A questão é se o Irã fechar o Estreito de Ormuz. Aí, vai haver uma estressada maior no petróleo”, explica Perfeito. “O impacto no preço do barril do petróleo pode ser relevante e isso traz implicações ao nível de atividade global”, acrescenta.

Impacto no Brasil 

Em relação ao Brasil, o economista André Perfeito considera que o Brasil poderá ser beneficiado por essa nova guerra. Ele destaca que o país é superavitário na balança comercial de petróleo em quase R$ 30 bilhões, “o que representa 43% de todo o saldo comercial do período segundo foi noticiado”. Logo, o país poderá ter mais ganhos na balança comercial com essa nova crise no Oriente Médio. 

“O Brasil, nesse cenário, pode se beneficiar fortemente, uma vez que simplesmente o país é superavitário na balança de petróleo e derivados. Dito de outra forma, bem ao gosto de um financista, estamos ‘hedgeados’ (protegidos). Se o preço do petróleo explode, o preço da gasolina importada sobe, mas o petróleo que o país exporta sobe também”, afirma Perfeito. Além disso, ele ainda acredita que o real poderá voltar se valorizar frente ao dólar nos próximos dias. “Provavelmente, o Brasil vai ganhar por WO, depois de décadas de esforço do próprio Brasil”, aposta.

Na avaliação do consultor, esse novo conflito no Oriente Médio, em meio ao processo de sucessão do aiatolá Ali Khamenei ter avançado ainda neste domingo (1/3), deverá durar algumas semanas. “O objetivo da parte dos EUA não está claro, afinal, não haverá queda de regime facilmente uma vez que a Guarda Revolucionária iraniana é uma instituição espraiada na sociedade daquele país. Logo, parece que Trump quer apenas um ‘caos’ para tentar atingir objetivos mais voltados à dinâmica doméstica dos EUA”, afirmou.