Ata do Copom ainda deixa incertezas sobre continuidade de corte de juros

Ao justificar a decisão de redução da Selic para 14,25% ao ano, o BC reforçou que entende que a medida “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta”

Crédito: Raphael Ribeiro/BC divulgação
Em ata do Copom, Banco Central faz novo alerta sobre a importância do cumprimento de metas para evitar

Após decidir reduzir da taxa básica da economia (Selic) de 14,50% para 14,25% ao ano, pela terceira reunião consecutiva, na semana passada, mesmo em um cenário perspectiva de piora na inflação, o Banco Central divulgou, nesta terça-feira (23/6), a ata do Comitê de Política Monetária (Copom). No documento, o BC tentou esclarecer o comunicado em que havia antecipado o horizonte relevante do fim de 2027 para o início de 2028, ou seja, antes do período previsto, a fim de sinalizar um espaço maior para o corte de juros — o que gerou uma reação negativa no mercado –, mas ainda deixou analistas ressabiados.

No documento com 25 parágrafos, sete a mais do que o da reunião anterior, o Comitê afirmou que, em um primeiro momento, foi ressaltado que o cenário havia se deteriorado desde a última decisão, em abril, “tanto em termos das leituras mais recentes da inflação cheia e suas medidas subjacentes, quanto das expectativas para os anos de 2026, 2027 e 2028”. Além disso, o BC reconheceu que a última leitura do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, no acumulado em 12 meses, de 4,72%, já está acima do limite superior estabelecido para a meta, de 4,50%.

Ao justificar a decisão de corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, o BC reforçou que entende que a medida “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta”, mesmo considerando as incertezas referentes ao aumento dos choques inflacionários devido ao conflito no Oriente Médio e os efeitos ainda não materializados relacionados com o impacto do El Niño no preço dos alimentos.

“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, destacou o comunicado.

Para analistas, a ata do Copom seguiu o tom mais dovish (ou seja, mais tolerante com a inflação), mas ainda deixa dúvidas se o BC vai interromper o ciclo de cortes na próxima reunião do Comitê, em agosto.

Na avaliação do economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, apesar de a ata esclarecer algumas dúvidas do comunicado, ainda faltam subsídios para mudar as projeções atuais do banco, que prevê a taxa Selic encerrando dezembro de 2026 em 13,75% ao ano. “Considerando tudo, aguardaremos a divulgação do Relatório de Política Monetária (RPM), na quinta-feira (25/6), antes de implementar qualquer revisão no nosso cenário de política monetária”, escreveu Mesquita em relatório aos clientes.

“Ao caracterizar o balanço de riscos como tendo assimetria altista (em uma frase inserida na parte do texto que usualmente apenas replica o comunicado), o Comitê sinaliza que qualquer espaço que ainda exista para a flexibilização está se esgotando rapidamente”, destacou o economista do Itaú.

Na última reunião do Copom, realizada na semana passada, o BC elevou de 4,6% para 5,2% a previsão de inflação deste ano, e revisou de 3,5% para 3,7%, a previsão para o IPCA acumulado em 12 meses no quarto trimestre de 2027, o chamado horizonte relevante atual da política monetária. E, no comunicado divulgado após a reunião, um dos trechos mais comentados por analistas foi o que indicava que o Comitê já estava olhando para 2028, deixando a entender que havia jogado a toalha para tentativa de convergência do indicador para o centro da meta, de 3%, em 2027.

Os analistas Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró, da Warren Investimentos, consideraram que o tom da ata do Copom foi dovish, indicando que o BC não está reagindo integralmente à deterioração do cenário. “O Copom tenta esclarecer o ruído de comunicação introduzido pelo comunicado, em especial sobre horizonte relevante e simulações”, destacaram. Para eles, o recado final é que o processo de calibração será ajustado com a mudança no cenário, ou seja, “cortes adicionais dependerão da evolução do cenário e choques de juros estão descartados”. Os analistas lembraram que o documento não altera o tom geral, ainda dovish, e transmite a mensagem de que o ciclo de calibração será ajustado “em meio a um cenário que se tornou mais adverso”.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, ressaltou que a taxa Selic terminal tende a ser mais alta do que se projetava anteriormente, e no mercado, essa projeção também está sendo revisada para cima. “O espaço para cortes está cada vez menor”, alertou.

Para ele, o Banco Central conseguiu explicar melhor na ata o seu raciocínio em relação ao primeiro trimestre de 2028. “Usualmente, quando se utiliza a média da trajetória da Selic para o horizonte relevante, o quarto trimestre de 2027, a projeção de inflação seria de 3,7%”, afirmou Sung. “Vale destacar que o Banco Central não deu nenhum guidance sobre os próximos passos. Considero a atitude adequada, porque deixa o cenário em aberto e preserva flexibilidade para incorporar novos dados”, acrescentou. A expectativa dele, nesse sentido, é de manutenção da taxa Selic, na reunião de agosto, em 14,25% ao ano, mas de encerramento do ano em 13,75% anuais. “Temos, porém, um cenário um pouco mais pessimista, em que haveria apenas um corte de juros até o final do ano”, emendou.