Queda no IBC-Br contribui para apostas de queda de 0,5 ponto percentual na Selic em março

Recuo de 0,2% no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), conhecido como prévia do PIB, em dezembro, confirma desaceleração da economia e contribui para apostas de corte de 0,50 ponto na Selic na próxima reunião do Copom

Prédio-sede do Banco Central Crédito: Leonardo Sá/Agência Senado

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) recuou 0,2%, em dezembro — na comparação com novembro, que apresentou alta de 0,6%. Contudo, no trimestre encerrado em dezembro de 2025 ante o trimestre anterior — encerrado em setembro –, o IBC-Br apresentou alta de 0,4%, conforme dados divulgados, nesta quinta-feira (19/2), pelo Banco Central.

O resultado do IBC-Br de dezembro apresentou desaceleração em relação ao dado mensal de novembro, quando houve alta de 0,4%, e, com isso, contribui para o aumento das apostas de corte de 0,5 ponto percentual na taxa básica da economia (Selic), atualmente em 15% ao ano, maior patamar desde julho de 2006, a partir de março, em vez de uma queda menor, de 0,25 pontos-base.

No acumulado em 12 meses, o IBC-Br avançou 2,5%. O indicador é considerado a prévia do Produto Interno Bruto (PIB) — que será divulgado em 3 de março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, mas costuma apresentar dados acima do PIB oficial. Em 2024, por exemplo, o PIB registrou avanço de 3,4% do PIB, conforme dados do IBGE. Enquanto isso, a alta acumulada do IBC-Br em 2024 foi de 3,8%, após recuo de 0,7% em dezembro daquele ano.

Conforme informações do BC, os dados setoriais do indicador apontaram avanços de 2,3% na agropecuária e de 0,3% na indústria, mas quedas de 0,3% em serviços — o que mais pesa no PIB e gera mais empregos –, e de 0,2% na arrecadação de impostos. Analistas ressaltam o processo de desaceleração na economia devido à política monetária restritiva do Banco Central. Alberto Ramos, do Goldman Sachs, destacou que esses dados compostos no relatório revelam um desempenho de 0,1% no PIB do primeiro trimestre de 2026.

“Para o futuro, esperamos que a atividade real continue a se beneficiar das transferências fiscais federais para famílias de baixa renda com alta propensão ao consumo, da expansão da renda disponível real das famílias, tanto do trabalho quanto de outras fontes, do novo programa de empréstimos com garantia de folha de pagamento e do aumento do limite de isenção do imposto de renda; fatores atenuados por condições monetárias e financeiras domésticas restritivas, altos níveis de endividamento das famílias e baixos níveis de ociosidade econômica”, taxa de desemprego abaixo da NAIRU e hiato do produto em território positivo”)”, escreveu Ramos. Ele ressaltou que o crescimento da renda disponível real bruta das famílias acelerou para 5,5%, em relação ao ano anterior em dezembro, (4,4% em relação ao ano anterior em dezembro), o que, aliado a um cenário de mercado de trabalho robusto, deve sustentar os gastos nos próximos meses.

“O IBC-Br apresentou um crescimento robusto em 2025, sustentado, principalmente, pelo setor de serviços e pelo desempenho muito forte da agropecuária, em virtude da safra recorde do ano passado. De todo modo, a análise dos dados sugere uma tendência de acomodação a partir do segundo semestre de 2025 que corrobora a nossa expectativa de desaceleração gradual da economia brasileira”, destacou o economista-chefe da G5 Partners, Luis Leal. Ele prevê estabilidade no PIB do quarto trimestre de 2025, o que garantirá um crescimento de 2,2% no PIB do ano passado, pelas estimativas dele.

Recentemente, o Ministério da Fazenda elevou de 2,2% para 2,3% a expectativa de expansão do PIB de 2025, conforme o relatório MacroFiscal elaborado pela Secretaria de Política Econômica (SPE). Para 2026, a estimativa da pasta chefiada pelo ministro Fernando Haddad é de crescimento parecido, de 2,3%, abaixo da previsão anterior, de 2,4%, especialmente pela desaceleração do impacto da agropecuária, que passará de 11,3%, em 2025, para 0,5%, neste ano.

O economista Arnaldo Lima, da Polo Capital Management, por sua vez, destacou que o dado do IBC-Br na margem confirma a perda de fôlego da atividade econômica, especialmente do setor de serviços, que representa quase 50% da composição do indicador, e, portanto, corrobora para o início do ciclo de corte da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março.

“A evidência de desaceleração da atividade, observada de forma mais clara nos dados de alta frequência do quarto trimestre e confirmada pelo IBC-Br, ocorre em um contexto em que o Banco Central tem enfatizado postura dependente de dados na condução da política monetária, acompanhando de perto o processo de moderação do crescimento e de convergência gradual da inflação à meta”, destacou Lima. Segundo ele, o resultado do IBC-Br de dezembro reforça a redução de 0,5 ponto percentual na Selic na reunião de março e de taxa terminal em 12%, “ligeiramente mais otimista do que a trajetória implícita no Focus, que aponta para 12,25% ao fim de 2026”.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, é mais cauteloso e espera uma taxa terminal maior em agosto, de 13%, porque a chance é grande de o Copom parar nesse patamar para “aguardar o desenrolar do cenário polı́tico”, que, neste ano, tem eleições presidenciais em outubro, e, portanto, haverá muita volatilidade nos mercados. Pelas projeções de Vale, o Banco Central manterá os juros básicos em 13% até dezembro e um dos principais indicadores que seguirão monitorados pelos diretores da autoridade monetária é mercado de trabalho, que segue aquecido, e, contribui para reduzir o impacto da política monetária na atividade.

“O ciclo de corte de juros começa em março em 0,50 ponto percentual até chegar a 13%, em agosto, e para por aí durante o período eleitoral. A economia ainda está resiliente dando sinais de que o trabalho do BC de desaceleração será árduo ainda. E isso demandará uma Selic alta durante um bom tempo ainda”, explicou Vale, em entrevista ao Blog. Segundo ele, o IBC-Br, de certa forma, confirma isso com um crescimento no último mês do ano de 3,1% na comparação anual, “mesmo com a leve queda na margem”. “Câmbio e alimentos podem ajudar marginalmente, mas bem menos do que foi ano passado. A consequência em ano eleitoral é que o Banco Central estará sozinho (no combate à inflação)”, acrescentou.

Pesquisa da Febraban

De acordo com pesquisa realizada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) junto a 21 bancos, o Copom deverá cortar a taxa Selic em 0,50 ponto percentual e os juros básicos devem ficar abaixo de 12,25% ao ano em dezembro, inferior à mediana das expectativas do mercado coletadas pelo BC no boletim Focus. Segundo o levantamento da Febraban, 76,2% dos entrevistados apoiaram a decisão do Copom de manter os juros inalterados em janeiro e já sinalizar o início do ciclo de flexibilização em março.

“A pesquisa mantém o viés de alta para as projeções do mercado de crédito, algo que temos observado desde o ano passado. Assim, mesmo com uma taxa Selic bastante elevada, o crédito deve manter um bom ritmo de expansão neste ano, ainda que com leve moderação”, afirmou Rubens Sardenberg, diretor de Economia, Regulação Prudencial e Riscos da Febraban, em nota da entidade divulgada ontem. “Essa revisão altista nas projeções segue concentrada na carteira livre destinada às famílias e com recursos direcionados para as empresas”, acrescentou.